Uma empresa ligada ao ex-ministro das Comunicações Fábio Faria recebeu R$ 2,1 milhões da Starlink desde junho de 2025 por serviços de “monitoramento regulatório, análise de riscos e suporte estratégico”. O contrato foi firmado dois anos e meio após o fim da gestão Bolsonaro, mas a relação entre Faria e a companhia de Elon Musk começou muito antes, nos corredores do governo.
Os pagamentos, que variam de R$ 129 mil a cerca de R$ 700 mil mensais, expõem a rota direta entre a atuação pública e o mercado privado no setor de telecomunicações. A pergunta que fica: até onde vai a influência de quem abriu as portas do Brasil para a internet via satélite?
O caminho da porta giratória
Fábio Faria comandou o Ministério das Comunicações entre 2020 e 2022. Nesse período, articulou a entrada da Starlink no país: negociou com a SpaceX, encontrou Musk nos EUA e pressionou a Anatel para dispensar a manifestação da Agência Espacial Brasileira — requisito que atrasava a autorização.
Em junho de 2022, em audiência na Câmara, o próprio ministro descreveu a ação: “Do meu gabinete, fiz um Zoom com todos os conselheiros da Anatel presentes”. A autorização saiu em janeiro daquele ano. Em maio, Faria organizou o encontro de Musk com Bolsonaro em Porto Feliz (SP), onde o empresário prometeu conectar 19 mil escolas rurais.
Após deixar o cargo, Faria passou pelo BTG Pactual e, em 2024, tornou-se sócio da Skylink, distribuidora dos serviços da Starlink — investiu R$ 250 mil no negócio. Saiu meses depois, segundo sócios, por possível conflito com a atuação do banco em infraestrutura de telecom.
O que o contrato prevê
Documentos obtidos pelo UOL mostram a prestação de serviços entre outubro de 2024 e outubro de 2025. A descrição é genérica, mas o valor total chama atenção:
- Período: jun/2025 a out/2025 (últimos comprovantes)
- Total faturado: R$ 2,1 milhões
- Maior parcela: ~R$ 700 mil em um único mês
- Último pagamento: R$ 129 mil (outubro/2025)
- Objeto: monitoramento regulatório, análise de riscos e suporte estratégico
Procurado, Faria não comentou, citando cláusula de confidencialidade. A Starlink também não se manifestou.
O fio que liga governo, banco e satélite
A teia não para na consultoria. Mensagens de 2024 no celular do banqueiro Daniel Vorcaro revelam tentativa de Faria e do BTG de intermediar uma conversa entre Elon Musk e o ministro Alexandre de Moraes, do STF. O contexto: Musk e Moraes travavam disputa judicial por ordens de remoção de conteúdo no X (antigo Twitter).
O episódio mostra como o ex-ministro manteve canal direto com o dono da Starlink mesmo fora do governo — e como esse acesso foi ofertado a atores do sistema financeiro e jurídico brasileiro.
Por que isso importa para o mercado
O caso ilustra um padrão recorrente em setores regulados: quem define as regras hoje pode vendê-las amanhã. Para investidores e empresários de telecom, o sinal é claro — o risco regulatório no Brasil tem dono, e ele cobra caro pelo “suporte estratégico”.
Além disso, a Starlink segue expandindo: já opera em todo o território nacional e disputa fatias do agronegócio, mineração e conectividade rural. Quem monitora a regulação de perto antecipa movimentos de concorrentes e mudanças de edital.
O que observar daqui pra frente
Três pontos merecem atenção nos próximos trimestres: (1) eventuais questionamentos no TCU ou Ministério Público sobre a legalidade do contrato pós-quarentena; (2) a renovação ou ampliação do acordo, que pode indicar dependência estrutural da Starlink desse tipo de assessoria; (3) a entrada de novos players de órbita baixa (como Kuiper, da Amazon), que podem replicar o modelo de lobby privado.
Para quem opera no setor, a lição prática: mapear quem detém o “mapa regulatório” deixou de ser opcional — virou variável de valuation.
