Economia

Heineken alerta pubs: a “geração Ozempic” está mudando o jeito de beber cerveja

Cerveja Heineken em copo sobre balcão de pub com menos clientes ao fundo
Heineken alerta donos de pubs: medicamentos GLP-1 como Ozempic reduzem consumo de cerveja

A Heineken enviou uma apresentação a donos de pubs e bares no Reino Unido com um recado direto: adaptem o cardápio ou percam faturamento. O motivo é o avanço dos medicamentos GLP-1, como Ozempic e Wegovy, que reduzem o apetite e, segundo a cervejaria, também freiam a vontade de beber.

A gigante holandesa reconhece pela primeira vez, de forma tão explícita, que essas drogas representam uma ameaça real às vendas de cerveja e sidra. O documento alerta para “saciedade e menor número de doses servidas” entre usuários.

O que a Heineken recomenda aos estabelecimentos

A apresentação, distribuída neste mês, lista três ações práticas para o setor de hospitalidade britânico:

  • Promover meias canecas (half pints) como opção padrão;
  • Expandir a oferta de rótulos com baixo ou zero álcool;
  • Criar combos que harmonizem bebidas com porções menores de comida.

Sem essas mudanças, a empresa projeta queda no fluxo de clientes e no ticket médio à medida que o uso dos medicamentos se populariza. O Reino Unido abriga mais de 2.000 pubs da rede Heineken, mercado considerado “relativamente promissor” numa Europa de crescimento lento.

Dados concretos mostram mudança de comportamento

Um acompanhamento da Circana com famílias americanas entre 2024 e 2026 revela o tamanho do impacto. Lares com pelo menos um usuário de GLP-1 reduziram os gastos mensais com álcool em cerca de 7% após dois anos de tratamento. O corte na cerveja foi ainda mais forte: 13,5%.

No Reino Unido, a cerveja movimentou quase 14 bilhões de libras (R$ 94,35 bi) em pubs, bares e restaurantes nos 12 meses até fevereiro de 2026. Desse total, menos de 300 milhões de libras (R$ 2,02 bi) vieram de opções sem ou com baixo álcool — um nicho que a Heineken aposta que vai crescer.

Não é só a Heineken que vê o sinal

Pesquisas da NIQ, da KAM e da própria Circana na Europa apontam na mesma direção: usuários de GLP-1 bebem menos. Dez de onze entrevistados pela Reuters relataram redução significativa no consumo, citando desconforto físico ou simplesmente a perda da vontade de beber.

Joseph Schacht, da Universidade do Colorado, liderou um ensaio clínico controlado sobre o efeito desses medicamentos em pessoas com transtorno por uso de álcool. Os resultados mostram queda consistente no desejo e no consumo. Para ele, pode ser um “momento Prozac” no tratamento da dependência — e um desafio estrutural para a indústria.

Concorrentes divergem sobre a gravidade

A Diageo, dona de Johnnie Walker e Smirnoff, disse a investidores que o impacto é “administrável” mesmo com expansão do uso. A Carlsberg afirmou que os dados atuais não sustentam a tese de que GLP-1 seja fator determinante nas tendências de cerveja. A AB InBev preferiu não comentar.

A Heineken, por sua vez, mantém o tom de cautela: “Observamos mudanças no comportamento e continuaremos acompanhando a evolução em 2027”, declarou a empresa à Reuters. O portfólio da marca — forte em low-alcohol e premium — estaria bem posicionado para a transição.

O que observar daqui para frente

O avanço dos GLP-1 no Reino Unido ainda está no início comparado aos EUA, onde 10 milhões de pessoas usaram essas drogas em 2023 segundo o JPMorgan. Se a curva de adoção britânica seguir o mesmo ritmo, pubs que não redesenharem a experiência de consumo — porções menores, mais opções sem álcool, combos alimentares — correm risco real de esvaziamento. Para investidores e operadores do setor, o indicador-chave nos próximos trimestres será a participação de low/no-alcohol no faturamento total do canal on-trade.