A Copersucar iniciou o fornecimento de etanol para abastecer navios no porto de Santos, marcando a estreia mundial de um corredor verde com o biocombustível. O movimento mira um mercado potencial de 50 bilhões de litros anuais se apenas 10% da frota global aderir. O primeiro navio já foi abastecido, mas a cadeia logística montada para isso é o verdadeiro diferencial da jogada.
O primeiro abastecimento e a tecnologia por trás
A operação inaugural ocorreu nesta semana no porta-contêineres CMA CGM IRON. A embarcação carrega o primeiro motor tricombustível do mundo certificado para operar com etanol, segundo as empresas envolvidas.
Até dezembro, estão programados novos abastecimentos para a frota da CMA CGM. A meta inicial é entregar cerca de 10 milhões de litros no terminal da Santos Brasil até o fim do ano.
O presidente da Copersucar, Tomás Manzano, classificou o fato como um marco para a navegação e para o biocombustível, inaugurando um novo mercado de destino global.
A logística que conecta o campo ao cais
A velocidade da operação não foi por acaso. A Copersucar ativou seu ecossistema verticalizado para garantir a entrega no cais:
- Produção: Usinas associadas à Copersucar.
- Transporte e armazenagem: Evolua Etanol (braço logístico do grupo).
- Terminal portuário: AGEO Terminais, dentro do complexo de Santos.
- Bunker: Terminal da Santos Brasil.
Essa integração elimina gargalos entre a safra e o navio, reduzindo custos e riscos de fornecimento — ponto crítico para armadores que precisam de previsibilidade.
Por que o setor marítimo olha para o etanol agora
A pressão por descarbonização empurrou o transporte marítimo para alternativas ao fuel oil pesado. O metanol verde virou aposta forte, mas a oferta ainda é escassa e cara.
Aqui entra a vantagem do etanol: motores preparados para metanol já aceitam etanol com ajustes mínimos. Segundo dados da DNV (Det Norske Veritas) citados no comunicado:
- 159 embarcações já operam com motores “methanol-ready”.
- Mais de 450 novos navios com essa tecnologia têm entrega prevista até 2030.
Isso significa uma frota apta a consumir etanol crescendo exponencialmente nos próximos seis anos, sem necessidade de novas encomendas tecnológicas.
O tamanho do prêmio para o Brasil
A demanda global por combustíveis marítimos supera 270 bilhões de litros por ano. Se o etanol capturar apenas 10% dessa fatia, o mercado adicional beira os 50 bilhões de litros anuais — volume superior à produção total brasileira atual de etanol combustível.
Para o produtor nacional, a equação é atrativa: produto com pegada de carbono baixa, logística dominada e um cliente (o setor naval) com metas obrigatórias de redução de emissões (IMO 2030/2050).
O que observar daqui para frente
O contrato inicial prevê 10 milhões de litros até dezembro, volume ainda tímido frente ao potencial. O sinal de tração virá com a renovação e ampliação desses contratos em 2025.
Dois gatilhos merecem monitoramento contínuo: a velocidade de certificação de novos motores tricombustíveis pelos grandes fabricantes (MAN, Wärtsilä, WinGD) e a definição de padrões globais de “bunkering” de etanol pela OMI. Quem estruturar a cadeia de suprimento agora — da cana ao bunker — larga na frente para capturar a demanda que começa a se materializar no horizonte 2026-2028.
