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Carros elétricos disparam 70%: governo abre consulta para evitar apagão na recarga

Carros elétricos carregando em estação pública no Brasil, infraestrutura de recarga
Estação de recarga para veículos elétricos: infraestrutura precisa acompanhar crescimento de 70% nas vendas

O Ministério de Minas e Energia abriu uma consulta pública de 30 dias para desenhar o futuro da recarga veicular no Brasil. O gatilho é um número que impõe urgência: as vendas de eletrificados cresceram 70% nos nove primeiros meses do ano frente a 2023 inteiro. A infraestrutura, porém, não acompanhou esse ritmo.

São 381,6 mil emplacamentos entre janeiro e setembro. Em setembro, quase um em cada cinco carros leves vendidos (19,8%) já era eletrificado. O governo classifica a mudança como estrutural, não passageira. A pergunta central da consulta é como evitar que a rede de distribuição trave justamente onde a frota mais cresce.

O mapa da desigualdade na recarga

O Brasil tem hoje 29.866 pontos públicos e semipúblicos de recarga. A concentração geográfica, contudo, expõe um abismo logístico que condiciona a viabilidade do carro elétrico fora dos grandes centros.

  • São Paulo sozinho concentra 26,3% de todos os pontos.
  • Região Sul + SP somam 50,7% da infraestrutura nacional.
  • Região Norte, com sete estados, possui apenas 3,4% do total.

Essa assimetria transforma a posse de um veículo elétrico em aposta arriscada para quem vive ou viaja fora do eixo Sul-Sudeste. A consulta busca subsídios para obrigar uma distribuição mais racional.

R$ 130 bilhões em investimentos pressionam a rede

O diagnóstico do ministério não olha apenas para o presente. Montadoras como BYD, Stellantis, Volkswagen, Toyota e GWM têm cerca de R$ 130 bilhões comprometidos até 2030 para nacionalizar a produção. A chinesa BYD, por exemplo, já pediu licença para dobrar a capacidade de sua fábrica para 600 mil unidades anuais.

Esse volume de capital exige previsibilidade regulatória. A pasta quer identificar barreiras legais que travam a instalação de eletropostos e definir diretrizes para integrar esses equipamentos ao planejamento energético setorial.

O impacto na conta de luz e nos transformadores

Além da quantidade de pontos, a qualidade da energia preocupa. A projeção oficial aponta para um consumo de 15 TWh em 2036 só para eletromobilidade — patamar comparável a outros grandes vetores de expansão da demanda.

O risco não está apenas no volume total, mas na concentração espacial e temporal. Condomínios residenciais, garagens corporativas, centros logísticos e corredores rodoviários podem criar “ilhas de demanda” intensas. O resultado prático: sobrecarga em circuitos de distribuição e transformadores de bairro não preparados para picos simultâneos de recarga.

O que a consulta pública vai definir na prática

O processo aberto nesta sexta-feira recebe contribuições por 30 dias. O foco técnico recai sobre três eixos:

  • Mapeamento preciso das barreiras regulatórias atuais;
  • Regras para conexão de infraestrutura de recarga às redes das distribuidoras;
  • Diretrizes de planejamento que antecipem a expansão da frota nos próximos dez anos.

Não se trata apenas de instalar tomadas. A integração envolve tarifação dinâmica, gestão de demanda (smart charging) e, possivelmente, obrigações de infraestrutura em novos empreendimentos imobiliários e postos de combustível.

O que observar nos próximos passos

O fechamento da consulta dará insumo para atos normativos que podem mudar a velocidade de instalação de pontos privados e públicos. Para o setor produtivo, o sinal crítico será a agilidade da Aneel em traduzir as diretrizes em regras de conexão claras. Para o consumidor, a métrica de sucesso será a redução do “deserto de recarga” no Norte, Nordeste e interior do país — sem o que a transição energética no transporte continuará restrita a uma fatia privilegiada do território.