Tecnologia

O segredo por trás do retorno do Orkut: 467 mil assinaturas e uma guerra contra algoritmos

Orkut Büyükkökten segura logotipo do Orkut com 467 mil assinaturas e bandeira do Brasil ao fundo
Criador do Orkut reúne quase 500 mil assinaturas para ressuscitar rede social focada em comunidades reais

O criador do Orkut reuniu quase meio milhão de assinaturas em 165 países para ressuscitar a rede social — e o Brasil responde por 62% desse movimento. A promessa: substituir feeds viciantes por comunidades reais.

Orkut Büyükkökten não esconde o alvo. Em carta aberta, acusa a indústria de ter tomado um “rumo errado” ao trocar conexão humana por métricas de engajamento. O resultado, segundo ele, é uma geração mais solitária, ansiosa e refém de algoritmos.

Por que o Brasil dita o ritmo da volta

Dos 467 mil apoiadores contabilizados até a manhã de 21 de agosto, 61,9% são brasileiros. Portugal aparece em segundo com 10,4%, seguido da Irlanda com 2,7%. Não é coincidência: o país foi o maior mercado da plataforma original fora dos EUA, e a nostalgia por comunidades como “Eu odeio acordar cedo” ou “Comunidade do Vorcaro” ainda move conversas em grupos de WhatsApp e Telegram.

Büyükkökten confirma: o Brasil será prioridade no relançamento. Não há data oficial, mas ele vincula a velocidade do retorno ao volume de assinaturas. A meta declarada é chegar a milhões.

O modelo que ele quer matar — e o que propõe no lugar

A crítica central não é nova, mas ganha peso vindo de um dos pioneiros. O turco argumenta que feeds infinitos transformam usuários em plateia passiva. No Orkut antigo, você era membro de uma comunidade. No Instagram ou TikTok, você apenas rola.

  • Feed algorítmico: otimiza tempo de tela, recompensa indignação e polarização.
  • Comunidades: recompensam gentileza, curiosidade, amizade e confiança.

Ele cita ainda a inteligência artificial como agravante: bots, deepfakes e conteúdo sintético dissolvem a premissa de que há uma pessoa real do outro lado.

Jogos, marcas e a aposta na economia do bairro

Buddy Poke, Colheita Feliz, Farmville. Büyükkökten chama de “triste” a remoção desses jogos pelas grandes plataformas — decisão que atribui à obsessão por otimização de engajamento. O plano é trazê-los de volta: “jogos criam comunidade e aproximam pessoas”.

Outro ponto de divergência: publicidade. Hoje, quem paga mais aparece mais. No novo Orkut, a ideia é permitir que a cafeteria da esquina forme uma comunidade com seus clientes frequentes. Pequenos negócios e marcas entram no ecossistema, mas sem leilão de atenção.

Eleições, desinformação e o “não” à regulação estatal

Na entrevista, Büyükkökten não poupa a Meta. Afirma que a plataforma “favoreceu Trump nas eleições dos EUA” e alerta: quando um algoritmo toma partido, a democracia corre risco. Cita desinformação sobre vacinas na pandemia — “milhões não se vacinaram e morreram por isso” — e operações de bots estrangeiros.

Surpreendentemente, ele rejeita regulação governamental. O argumento: governos mudam, e quem está no poder hoje pode usar a regulação contra adversários amanhã. Exemplos citados: EUA (Trump vs. Biden vs. Harris) e Brasil (próximos presidentes).

Em vez disso, defende responsabilização corporativa com ferramentas obrigatórias: checagem de fatos ativa, barreiras contra polarização artificial e moderação de discurso de ódio, tráfico e pornografia infantil. Liberdade de expressão, diz, não cobre isso.

O que observar nos próximos meses

A petição segue aberta. Se o volume de assinaturas ditar o cronograma, o sinal verde para investidores e empreendedores brasileiros é claro: há demanda latente por plataformas que não tratem atenção como commodity. Pequenos negócios que dependem de alcance orgânico hoje devem monitorar o desenvolvimento — a promessa de comunidades de bairro digital pode redesenhar o marketing local. Enquanto isso, o debate sobre autorregulação eficaz versus intervenção estatal continua aberto no STF e no TSE. Quem apostar cedo em presença nessas novas comunidades pode levar vantagem quando — e se — a plataforma efetivamente voltar ao ar.