A Justiça Eleitoral garantiu transporte fluvial gratuito para eleitores indígenas do Vale do Javari no segundo turno deste domingo (25). A decisão resolve um problema imediato, mas escancara a complexidade de levar urnas a uma área maior que a Paraíba.
A juíza Dálethe Borges Messias, da 42ª Zona Eleitoral, selou o acordo na quarta-feira (21) com lideranças locais. O combinado exige que as comunidades apresentem a relação de embarcações, responsáveis e fontes de custeio — mecanismo criado para evitar desvios e garantir fiscalização.
Uma operação de guerra na maior fronteira indígena do país
O Vale do Javari concentra 74 aldeias, sete povos e mais de 6 mil indígenas em 8,5 milhões de hectares. É a segunda maior terra indígena do Brasil e abriga a maior população de povos isolados do planeta. No primeiro turno, a própria juíza acompanhou a entrega de urnas nas comunidades de Paraíso e Remancinho.
Não há estradas. Tudo depende de rotas fluviais cujo tempo de navegação varia de horas a dias, conforme o nível dos rios e a época do ano. A logística envolve embarcações, combustível, tripulação e segurança em região dominada por narcotráfico, garimpo ilegal e biopirataria.
O que muda a partir de agora
O TRE-AM estabeleceu protocolo permanente para futuras eleições. As informações exigidas antecipadamente incluem:
- Locais de votação e comunidades atendidas
- Rotas fluviais, distâncias e condições de navegabilidade
- Estimativa de eleitores por trecho
- Embarcações e tripulações disponíveis
A padronização visa acabar com a improvisação que marca cada pleito. Até então, a articulação ocorria em cima da hora, sob risco de deixar comunidades inteiras sem votar.
O custo invisível da democracia na floresta
O Estado banca o transporte, mas a conta real envolve muito mais que combustível. Há o desgaste de embarcações, risco à tripulação, necessidade de escolta em trechos conflagrados e a coordenação entre Funai, Exército, Marinha, Polícia Federal e TRE. Cada erro logístico pode significar uma aldeia inteira fora do processo eleitoral.
Em 2022, o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips foram emboscados no Rio Itaquaí — o mesmo corredor por onde urnas e eleitores circulam. A violência na região não é pano de fundo: é variável operacional.
O que observar daqui pra frente
O modelo desenhado para o Vale do Javari pode virar referência para outras terras indígenas de difícil acesso. A exigência de planejamento antecipado, transparência no custeio e mapeamento de rotas cria um precedente administrativo. Se funcionar, reduz a judicialização de última hora e garante previsibilidade. O teste real será a execução deste domingo — e a capacidade de replicar a estrutura em 2028 sem depender de decisões emergenciais.
