A Farm Rio traçou uma rota ousada: colocar os pés na Ásia em até três anos, com China e Austrália como portas de entrada, mesmo enquanto a marca passa por um processo de venda. O plano, revelado pelo CEO Fábio Barreto e pelo cofundador Marcello Bastos, prevê que 60% do faturamento venha do exterior até 2032 — hoje, a operação internacional responde por fatia bem menor.
Viagem de reconhecimento com a McKinsey ao lado
Nos últimos meses, Barreto visitou três cidades chinesas, duas no Japão, Coreia do Sul e Singapura. Não foi turismo: a consultoria McKinsey foi contratada para “destravar o valor internacional” da marca e acompanhou a comitiva. A escolha dos alvos não é aleatória. A China pesa pela influência regional; a Austrália, pela proximidade cultural com o público que a Farm já conquistou nos EUA e na Europa.
Índia e Tailândia aparecem no radar, mas para uma segunda onda de expansão.
Expansão “raiz por raiz” e o caso Madri
A estratégia da empresa é metódica: abre uma loja por cidade, fixa raízes e só depois avança. Hoje são 14 unidades próprias fora do Brasil — Londres, Paris, Nova York, Los Angeles entre elas. O laboratório atual é Madri. A marca inaugurou uma pop-up na capital espanhola e negocia o ponto definitivo, enquanto estampa os uniformes de aquecimento do Real Madrid em parceria com a Adidas.
O elefante na sala: a venda da empresa
Paralelo à expansão, a Farm está no centro de uma reorganização societária que a separou do grupo Azzas 2154. A marca foi transferida para uma nova sociedade, com governança própria, reunindo Farm Brasil, Farm Internacional e Fábula. A Arezzo&Co. ficou com 57,4%; o Grupo Soma, com 42,6%.
O Cade aprovou o desmonte da fusão em 14 de outubro, sem restrições. A operação desfaz a união entre Arezzo e Soma aprovada em março de 2024.
Planos “robustos demais” para serem travados
Questionados se um novo controlador poderia frear a internacionalização, os executivos foram diretos. “São planos robustos demais”, afirmou Bastos. A leitura interna é que a tese de valor da Farm está justamente na capacidade de escalar globalmente — o que a torna atrativa justamente para quem busca ativos com trajetória de crescimento clara.
Duas frentes, um mesmo “middle market”
Desde que assumiu há seis meses, Barreto toca a expansão global. Bastos comanda Brasil e América Latina. As coleções são diferentes para cada mercado, mas o posicionamento é o mesmo: o “middle market”, faixa intermediária entre fast fashion e luxo. A aposta é que a linguagem visual da marca — estampas tropicais, cores saturadas, storytelling brasileiro — viaje bem.
São Paulo ainda é prioridade
Não é só olhar para fora. Nesta quinta-feira (22), a loja do shopping Iguatemi, no Itaim Bibi, reabriu as portas. Barreto avalia que a capital paulista ainda tem espaço para crescer em clientela e presença de marca. “Não atingimos o potencial total”, resume o CEO.
O que observar daqui para frente
- Definição do comprador: a estrutura acionária (Arezzo 57,4% / Soma 42,6%) pode mudar se houver aquisição de uma das partes por fundo ou player estratégico.
- Primeira loja asiática: a escolha entre China ou Austrália sinalizará o ritmo e o modelo de entrada (própria, franquia ou joint venture).
- Meta 2032: para chegar a 60% de receita internacional, a Farm precisará abrir de 5 a 8 lojas/ano fora do Brasil nos próximos 8 anos — ritmo superior ao histórico recente.
- Sinergia com Fábula: a marca infantil no mesmo guarda-chuva pode acelerar entrada em shoppings e marketplaces asiáticos onde o ticket médio familiar é alto.
O cenário é de execução paralela: vender a empresa sem parar a expansão. Se der certo, a Farm vira case raro de marca brasileira que escala globalmente durante uma transição de controle. Se der errado, o ativo internacional vira a moeda de troca mais valiosa na mesa de negociação.
