O Bradesco fechou o terceiro trimestre com lucro líquido de R$ 7,1 bilhões, alta de 14,6% na comparação anual. O resultado veio em linha com as estimativas do mercado, mas esconde uma engenharia fina: o banco ganhou menos com juros, mas compensou com receitas de serviços e um corte cirúrgico nas despesas.
Em um cenário de Selic elevada e crédito restrito, a margem financeira com clientes encolheu 3,5% no trimestre. A saída foi acelerar linhas que não dependem de empréstimos. A estratégia funcionou, mas deixou rastros na qualidade dos ativos.
Como o banco driblou o crédito travado
O CEO Marcelo Noronha foi direto: a prioridade passou a ser risco baixo e garantias reais. O estoque total de crédito subiu 11% em um ano, chegando a R$ 1,15 trilhão, mas a composição mudou radicalmente.
- Pessoas Jurídicas puxaram a alta, com expansão de 14% no saldo;
- Consignado privado dobrou de tamanho em 12 meses;
- Veículos (PF) e cartão alta renda cresceram acima da média;
- Crédito pessoal sem garantia recuou 2,5% no período.
Do lado da receita, as chamadas “não oriundas de crédito” — gestão de recursos, mercado de capitais, cartões e consórcios — fizeram o contraponto necessário. Simultaneamente, as despesas operacionais caíram 1% em um ano, um feito raro em inflação alta.
Inadimplência: o ponto de atenção que cresce nos bastidores
O índice de atrasos acima de 90 dias subiu para 4,6%, alta de 0,5 ponto percentual em um ano. O número ainda é gerenciável, mas a concentração do risco preocupa analistas.
Metade da deterioração veio do crédito pessoal não consignado. O outro grande vilão foi sazonal: a carteira do Banco John Deere, pesada no agro, apresentou atrasos característicos do ciclo da safra. No segmento MPME, o destaque negativo vai para capital de giro com garantia do governo (Fampe), cuja inadimplência saltou de 3,7% (set/25) para 4,9% agora.
Para cobrir esse cenário, as provisões para perdas esperadas dispararam 24,3% no ano, atingindo R$ 10,6 bilhões no trimestre. O banco cita reavaliação de safras antigas, especialmente no rural, e a própria expansão da carteira como motores do aumento.
Capital reforçado e a aposta na transformação
O Bradesco injetou R$ 10 bilhões no caixa via follow-on recente. A capitalização extra serve a dois propósitos: sustentar o apetite por risco controlado e financiar a reestruturação tecnológica e física tocada por Noronha desde novembro de 2023.
O ROAE (retorno sobre o patrimônio) recorrente ficou em 16,1%. A meta declarada é voltar ao patamar pré-pandemia, acima de 20%. Para isso, o plano prevê:
- Fim de agências físicas redundantes (hoje são 1.741);
- Migração de massa para canais digitais de alta conversão;
- Foco em produtos de maior rentabilidade ajustada ao risco.
O braço de seguros ajudou, lucrando R$ 2,9 bilhões (alta de 14,1% no ano), e o novo programa de recompra de ações — até 106,5 milhões de papéis entre 2026 e 2028 — sinaliza confiança na geração de caixa excedente.
O que observar daqui para frente
O próximo teste não é o lucro do trimestre, mas a trajetória do custo do risco. Se as provisões continuarem subindo acima da carteira, o ROAE trava. Outro gatilho é a inadimplência no consignado privado: o crescimento explosivo da linha será testado num eventual aperto do mercado de trabalho. Por fim, a execução do follow-on — transformar capital em eficiência operacional real — ditará se o banco consegue destravar o valuation que o mercado ainda desconta.
