A greve de caminhoneiros que bloqueia rodovias no sul da Itália há quase uma semana forçou a paralisação total da produção de muçarela de búfala, colocando em xeque uma cadeia que movimenta 1 milhão de litros de leite por dia. O consórcio que reúne 100 fabricantes da Mozzarella di Bufala Campana confirmou a interrupção nos últimos três dias e alerta: a crise “piora a cada hora”.
O efeito dominó no agronegócio italiano
Os laticínios são apenas a ponta visível. Fabricantes de massa como Rummo e La Molisana já suspenderam linhas de produção por falta de trigo. Na Sicília, toneladas de tomate de Pachino apodrecem nos campos sem caminhões para o escoamento. Postos de combustível secaram, aeroportos regionais enfrentam escassez de querosene e a coleta de lixo na Campânia entrou em colapso.
O gatilho foi o preço do diesel. A paralisação começou na sexta-feira (16) e se espalhou por regiões produtoras estratégicas, justamente onde a logística de produtos perecíveis tem janela zero de tolerância.
Por que a muçarela não espera
As regras do consórcio são rígidas: o queijo deve ser produzido em até 60 horas após a coleta do leite. Em condições normais, a região de Nápoles processa 1 milhão de litros diários e entrega 250 mil quilos de muçarela fresca ao mercado.
“Para nós, cada hora conta”, resume Pier Maria Saccani, diretor-geral do consórcio. “Os laticínios pararam e as fazendas não têm onde estocar o leite.”
A conta do prejuízo
- € 3 milhões por dia em receita perdida apenas para os associados do consórcio
- Custos de produção já pressionados pela alta do leite antes da greve
- Risco de perda total de lotes de leite cru sem destinação
O setor de massas reporta cenário similar. A Rummo zerou estoques e parou fábricas. A La Molisana admite “redução drástica da produção” à espera de trigo que não chega.
Resposta do governo: dinheiro e ameaça penal
Roma liberou 480 milhões de euros em créditos tributários para compra de diesel e outros 590 milhões para renovação de frotas. O pacote soma cerca de R$ 6 bilhões.
Na quarta (21), a estratégia endureceu. O ministro da Indústria, Adolfo Urso, avisou: bloquear apenas caminhões enquanto carros circulam configura crime de bloqueio de estrada, com pena de prisão. O ministro da Agricultura, Francesco Lollobrigida, classificou a paralisação como “verdadeiramente injustificável”.
Racha entre os grevistas
Caminhoneiros da Sicília aceitaram encerrar o protesto na terça-feira à noite. Nos arredores de Nápoles — coração da produção de muçarela —, a greve persiste. Saccani resume o impasse: “Parece uma guerra entre os pobres. O governo precisa romper isso antes que a economia pare por completo.”
O que observar nos próximos dias
A recomposição da logística de leite e trigo depende da desmobilização nos acessos a Nápoles. Se o bloqueio persistir até o fim de semana, a escassez nas gôndolas de supermercados — já relatada no varejo — deve se ampliar para outras regiões italianas e mercados de exportação. O sinal de alerta está no ritmo de retomada dos comboios escoltados prometidos pelo governo: se não houver fluxo contínuo a partir de quinta-feira, a safra de tomate e a moagem de trigo entram em perdas irreversíveis.
