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Surto de Newcastle em SC: emergência de 60 dias e o risco silencioso ao comércio exterior

Perus em granja comercial com equipes de biossegurança em Santa Catarina durante surto de Newcastle
Despovoamento sanitário em Nova Itaberaba (SC) segue protocolo rígido contra doença de Newcastle

O Ministério da Agricultura confirmou a conclusão do despovoamento sanitário em um plantel comercial de perus de corte no município de Nova Itaberaba, em Santa Catarina, onde um foco da doença de Newcastle foi detectado. A medida atende a protocolos rígidos, mas a declaração de emergência zoossanitária por 60 dias em quatro municípios acende um alerta para a cadeia exportadora de aves.

O foco foi confirmado no domingo (18) e a propriedade interditada imediatamente. O que permanece incerto é o tempo necessário para que os mercados internacionais retomem a confiança total nas certificações sanitárias brasileiras.

O que aconteceu nas últimas 72 horas

Equipes da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), do Instituto Catarinense de Sanidade Agropecuária, da Polícia Civil e da prefeitura local atuam em conjunto com o Ministério da Agricultura. O trabalho envolve três frentes simultâneas:

  • Limpeza e desinfecção completa das instalações do estabelecimento afetado.
  • Vigilância epidemiológica em propriedades no entorno da área de restrição.
  • Controle rigoroso do trânsito de aves, ovos, rações e equipamentos na região.

O Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo validou o diagnóstico do paramixovírus aviário do sorotipo 1 (APMV-1), agente causador da forma virulenta da doença.

Impacto direto no mapa produtivo catarinense

A portaria de emergência abrange Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim. Juntos, esses municípios concentram uma fatia relevante da produção de perus de corte do estado, que responde por cerca de 15% do volume nacional.

Enquanto a emergência vigorar, a emissão de guias de trânsito animal (GTAs) para aves e produtos de risco fica suspensa na zona de restrição. Isso significa paralisação temporária de abates, remessas a granjas de reprodução e fluxo de insumos — um golpe logístico para integradoras e produtores independentes.

O xadrez diplomático com a OMSA e parceiros comerciais

O Brasil notificou oficialmente a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e compartilhou dados técnicos com importadores bilaterais. O protocolo padrão prevê que países compradores possam impor restrições regionais ou totais enquanto a emergência não for encerrada.

Historicamente, surtos de Newcastle em plantéis comerciais no Brasil levaram a embargo temporário de até 90 dias por parte de mercados como União Europeia e China. A rapidez na contenção — despovoamento concluído em menos de uma semana — será o principal argumento para negociações de reabertura acelerada.

Por que a doença de Newcastle assusta mais que a gripe aviária

Diferente da influenza aviária de alta patogenicidade, a Newcastle virulenta tem taxa de mortalidade que pode chegar a 100% em bandos não vacinados e se espalha por contato direto, aerossol e fômites. O vírus resiste semanas no ambiente, o que exige desinfecção profunda e vazio sanitário prolongado antes de novo povoamento.

Santa Catarina é zona livre de gripe aviária e de Newcastle há décadas. A quebra desse status, mesmo que circunscrita, exige reconstrução de credibilidade perante a OMSA — processo que envolve auditorias externas e demonstração de 12 meses sem novos focos para recuperação plena do status sanitário.

O que observar daqui para frente

Os próximos 60 dias definirão a extensão do prejuízo. Três variáveis merecem monitoramento diário por quem opera na ponta da cadeia: a velocidade de liberação das GTAs na zona de buffer, a posição dos principais importadores (Arábia Saudita, Emirados, Japão, China e UE) em relação a certificados de origem emitidos por Santa Catarina, e a eventual detecção de novos focos em propriedades de fundo de quintal ou vida silvestre no raio de 10 km. A recomposição do plantel na granja afetada só poderá ocorrer após aprovação do vazio sanitário pelo serviço veterinário oficial — prazo que, na prática, costuma superar os 60 dias da emergência.