Um produtor rural de 91 anos descobriu que mais da metade do seu rebanho simplesmente deixou de existir nos pastos. A diferença entre o cadastro oficial e a contagem real revela um rombo estimado em R$ 11 milhões. A investigação policial aponta para quem tinha as chaves da porteira.
A Polícia Civil deflagrou a Operação Apropriare nesta quarta-feira (21) na região central do Rio Grande do Sul. O alvo principal: um ex-gerente que administrou as fazendas da vítima por quase uma década, entre 2016 e 2025.
O tamanho do buraco no pasto
Os números oficiais da Secretaria da Agricultura indicavam 4.793 cabeças registradas em nome do idoso. Quando a equipe foi a campo contar, encontrou apenas 2.405 animais. A conta não fecha: faltam 2.388 bovinos.
Considerando a cotação média de mercado, o prejuízo patrimonial ultrapassa a casa dos R$ 11 milhões. Foi o próprio produtor quem procurou a delegacia ao perceber a discrepância, desencadeando uma apuração que durou meses.
Como o esquema funcionava, segundo a polícia
A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) de Santiago analisou Guias de Trânsito Animal (GTAs), notas fiscais e movimentações bancárias obtidas com autorização judicial. O padrão que emergiu dos documentos sugere uma engenharia bem estruturada:
- Animais do idoso eram transferidos para o cadastro de um familiar do gerente, sem pagamento;
- O cadastro do investigado funcionava dentro da própria propriedade da vítima;
- Registros de nascimento de terneiros apareciam no nome do investigado no mesmo dia em que os animais saíam para outra fazenda;
- Notas fiscais de venda não tinham contrapartida financeira nos extratos bancários.
Em resumo: a papelada mostrava movimentações que o dinheiro não confirmava.
Bens de luxo comprados com dinheiro do gado?
Seis pessoas estão sob investigação. Dependendo do grau de participação, podem responder por apropriação indébita, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.
Dois aquisições chamaram a atenção dos investigadores. Em janeiro de 2024, uma caminhonete foi comprada. Em julho do mesmo ano, uma área rural em Santiago foi adquirida. A escritura registra valor de R$ 50 mil, mas os extratos bancários mostram pagamentos de R$ 179 mil ao vendedor. A diferença de R$ 129 mil levanta a suspeita de falsidade ideológica e lavagem de ativos.
O que foi recuperado até agora
Durante o cumprimento dos cinco mandados de busca e apreensão — quatro em Santiago e um em São Vicente do Sul —, a polícia apreendeu:
- 400 bovinos;
- Uma camionete Hilux;
- Um imóvel rural sequestrado por decisão judicial.
Além disso, a Justiça determinou o bloqueio de contas bancárias e de criptoativos dos investigados. A operação contou com apoio direto da Secretaria da Agricultura.
O que observar daqui para frente
As investigações continuam para rastrear o destino dos demais animais e identificar outros bens que possam ter sido adquiridos com recursos do desvio. Para produtores rurais e investidores do setor, o caso acende um alerta sobre a importância de auditorias periódicas presenciais no rebanho, conferência cruzada entre GTAs e extratos financeiros, e segregação de funções entre quem opera a fazenda e quem controla a escrituração zootécnica. A confiança, sozinha, não é controle interno.
