O Carrefour vai fechar o ano com um buraco de até 200 milhões de euros no resultado operacional — reflexo direto dos saques que atingiram dezenas de lojas durante os protestos na França. A rede confirma que 50 unidades e 19 supermercados foram depredados no fim de semana, e o prejuíço pode consumir até 60% do lucro do quarto trimestre, justamente o período mais forte do varejo.
As ações da companhia chegaram a cair 17,77% na Bolsa de Paris, negociadas a 13,84 euros. O tombo aconteceu depois que o CEO Alexandre Bompard admitiu à rádio France Inter que a meta de margem operacional para 2024 não será cumprida.
O que está por trás dos números
A projeção de expansão da margem caiu de “pelo menos 0,25%” para uma faixa entre 0% e 0,15%. Em paralelo, o grupo vai cortar 100 milhões de euros em investimentos programados para a França até dezembro.
No terceiro trimestre, o faturamento havia crescido 3,9% na comparação anual, atingindo 22,7 bilhões de euros. As vendas comparáveis subiram 2,3%, puxadas pelo desempenho internacional. O momento era favorável — até os distúrbios mudarem o cenário.
Dois golpes em menos de um mês
Os saques não foram o único revés. Na semana anterior, um ataque cibernético derrubou sistemas de refrigeração em centenas de supermercados e lojas de conveniência da rede. Equipamentos queimaram, estoques perecíveis estragaram e a operação parou em diversas unidades.
Analistas da Jefferies estimam que o quarto trimestre — tradicionalmente impulsionado pelas festas de fim de ano — pode ter até 60% do lucro operacional comprometido pela combinação dos dois eventos.
- Prejuízo estimado: 80 a 200 milhões de euros (R$ 451 mi a R$ 1,13 bi)
- Lojas saqueadas: 50 hipermercados + 19 supermercados
- Corte de investimentos: 100 milhões de euros na França
- Queda das ações: 17,77% no pregão posterior ao anúncio
O argumento do CEO e a leitura do mercado
Bompard classificou os atos como “delinquência pura”, sem relação com o poder de compra da população. A declaração tenta separar a violência da pauta legítima dos protestos contra o custo de vida — mas não convenceu investidores.
O mercado precificou não apenas o impacto imediato, mas a sinalização de que a operação francesa, maior mercado do grupo, entra em modo defensivo. Reduzir capex em 100 milhões de euros no meio do exercício é movimento raro para uma varejista desse porte.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar a recuperação: a extensão real dos danos físicos nas lojas (algumas podem ficar fechadas por semanas), a velocidade de recomposição dos sistemas após o ataque cibernético e, principalmente, se a confiança do consumidor francês — já abalada pela inflação energética — volta a sustentar o tráfego nas unidades reabertas. O próximo balanço trimestral será o teste de realidade.
