Cultura

O segredo do teatro que esgotou duas sessões no mesmo dia

Plateia lotada no Sesc Ginástico para estreia de Gonzaguinha É na 18ª FITA
Público esgota duas sessões no mesmo dia na estreia de Gonzaguinha É na FITA 2024

A estreia de “Gonzaguinha É” no Sesc Ginástico não foi apenas uma noite de gala cultural — foi um caso de estudo em gestão de público. Em 7 de outubro, a 18ª FITA (Festa Internacional de Teatro de Angra) abriu as portas para o espetáculo da Cia. Barca dos Corações Partidos e, diante da demanda, precisou adicionar uma segunda sessão no mesmo dia. Para quem gere negócios criativos, o recado é claro: repertório histórico, quando bem curado, vira ativo de bilheteria.

O ciclo de 14 anos que ensina sobre timing de mercado

O grupo estreou no mesmo teatro em 2012 com “Gonzagão – A Lenda”, focado no pai, Luiz Gonzaga. Agora, às vésperas dos 15 anos da companhia e dos 80 anos que Gonzaguinha completaria, o foco vira o filho urbano. Não é nostalgia: é reposicionamento de marca. A dramaturgia de Braulio Tavares e Ana Carbatti nasceu do acervo privado de Nanan Gonzaga — cartas, crônicas e a correspondência de outubro de 1990, meses antes da morte do compositor. O critério? Equilíbrio entre documento e força poética, sem deixar um explicar o outro.

Direção colaborativa: oito cabeças, uma narrativa

Inez Viana assina a direção artística, mas o protagonismo se reparte entre oito performers. Os quatro fundadores da Barca — Ádren Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos e Ricca Barros — dividem cena com quatro atrizes-músicas convidadas: Ana MaGa, Luiza Loroza, Nívea Magno e Thati Dias. A escolha não é decorativa. Gonzaguinha foi um dos poucos letristas a escrever o desejo feminino sem paternalismo. Colocar mulheres para cantar essas músicas transforma intérpretes em coautoras, quebrando o monopólio narrativo masculino sobre a própria obra.

  • Elenco: 8 performers (4 fundadores + 4 convidadas)
  • Duração: 120 minutos
  • Classificação: 12 anos
  • Ingressos: a partir de R$ 15 (varia por canal e dia)

Curadoria baseada em dados: 260 faixas, 25 no palco

Alfredo Del-Penho e Beto Lemos, com apoio de Xandão Viana, mapearam todo o catálogo: 260 gravações, das quais apenas 22 nasceram de parcerias. Um índice de autossuficiência autoral raro na MPB. Da pesquisa, 50 obras foram pré-selecionadas e cerca de 25 conduzem o espetáculo. Os arranjos desmontam o rótulo de “cantor rancor” dos anos 70 e o de “trovador passional” posterior. Raiva política e lirismo amoroso bebiam da mesma fonte: afeto pela dignidade humana em choque com a injustiça social.

Cenografia como infraestrutura de memória

Mina Quental desenhou escaninhos versáteis que organizam instrumentos elétricos e acústicos, transformando o tablado em ágora. A luz de Ana Luzia de Simoni marca contrastes éticos — o ponto de tensão máxima recria 30 de abril de 1981, quando Gonzaguinha avisou do Riocentro sobre as bombas no estacionamento. Figurino de Carol Lobato, visagismo de Cidoca Nogueira e som de Gabriel D’Angelo garantem que nenhuma palavra se perca. Cada elemento técnico serve à narrativa, não ao espetáculo pelo espetáculo.

O que o público de Angra ensina sobre demanda reprimida

Duas sessões lotadas no mesmo dia de estreia não acontecem por acaso. Sinalizam uma plateia sedenta por teatro musical que não se contenta com homenagem passiva. O gênero no Brasil avançou: virou instrumento de reflexão histórica crítica. “Gonzaguinha É” mantém o verbo no presente do indicativo — a obra segue atual. Quando o coro final explode em “O Que É, O Que É?”, a euforia da plateia lembra que defender a alegria em tempos ásperos continua sendo forma de combate. E, para o negócio teatro, forma de fidelização.

Agenda e sinais para observar daqui pra frente

O espetáculo cumpre temporada no Teatro Sesc Ginástico (Av. Graça Aranha, 187, Centro, Rio): quintas e sextas às 19h, sábados e domingos às 17h. A operação roda com ingressos acessíveis a partir de R$ 15, variando por canal — Ingresso.com entre eles. Para investidores e gestores culturais, três métricas merecem acompanhamento: taxa de ocupação nas semanas seguintes, perfil do público (novos vs. recorrentes) e repercussão em editais de circulação nacional. O retorno da Barca ao berço, agora com outro Gonzagão, prova que memória bem gerida não envelhece — ela escala.