A Globo confirmou que todas as novelas inéditas de 2027 ganharão derivados no formato vertical, voltados para consumo no celular. O anúncio aconteceu durante o Upfront 2027, evento para o mercado publicitário, e transforma em política oficial o que começou como teste com “Loquinha”, spin-off de Três Graças que viralizou globalmente.
A atriz Mel Maia, escalada para Avenida Brasil 2, revelou o número que justifica a guinada: mais de 500 milhões de visualizações acumuladas pelos microdramas da emissora até aqui. “O brasileiro está viciado nesse formato”, disse ela no palco.
O fenômeno que mudou a estratégia da emissora
“Loquinha” expandiu o universo de Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky) em episódios curtos, gravados na vertical nativa — sem barras pretas, sem recorte de TV. A recepção extrapolou o público tradicional de novelas e alcançou fãs de shorts, reels e TikTok.
O sucesso não foi isolado. Antes mesmo da estreia de Por Você (2026), a Globo lançou um prólogo vertical focado na amizade entre Bela (Sheron Menezzes) e Juli (Lucy Ramos). Coração Acelerado, trama sertaneja do mesmo ano, ganhou microdrama protagonizado por Ana Castela interpretando uma versão fictícia de si mesma, com Gael (André Luiz Frambach) e até Susana Vieira no elenco.
Um mercado de US$ 11 bilhões — e o Brasil ainda engatinha
Dados da consultoria Omdia mostram que o segmento de novelas verticais gerou US$ 11 bilhões (cerca de R$ 55,5 bi) em 2025. A China responde por 83% desse faturamento; os EUA, por 8,57%. O Brasil, apesar da força da teledramaturgia, ainda não aparece como player relevante na conta global.
A Globo quer mudar isso. O Globoplay já lança, em média, um microdrama vertical inédito por mês. Para o restante de 2026, estão previstas mais três estreias. A plataforma também resgatou personagens icônicos: Félix (Mateus Solano, Amor à Vida) e Clara (Bianca Bin, O Outro Lado do Paraíso) ganharam episódios próprios.
O que muda na prática para o espectador e para o anunciante
- Roteiro nativo vertical: não há reaproveitamento de cenas horizontais; a narrativa é pensada para tela cheia no celular.
- Episódios de 60 a 90 segundos: ritmo acelerado, ganchos a cada corte, zero tempo morto.
- Distribuição multiplataforma: Globoplay, YouTube Shorts, Instagram Reels, TikTok — o conteúdo vive onde o público está.
- Produto publicitário novo: branded content integrado, product placement orgânico, métricas de retenção por segundo.
Para o mercado anunciante, o formato entrega algo raro: atenção plena em tela cheia, sem concorrência de scroll lateral. Para o espectador, a promessa é de histórias completas consumíveis no intervalo do café.
Riscos e perguntas que ficam no ar
A industrialização do formato traz desafios. Manter qualidade de roteiro e atuação em volume mensal — 12 a 15 microdramas por ano, fora as novelas-mãe — exigirá estrutura de roteiristas e diretores dedicados exclusivamente ao vertical. Hoje, parte das equipes ainda acumula as duas frentes.
Outro ponto: a canibalização de audiência. O espectador que consome o spin-off vertical sentirá necessidade de assistir à novela principal no horário nobre? A Globo aposta que um alimenta o outro, mas o comportamento real só será medido a partir de 2027.
O que observar nos próximos meses
Três indicadores dirão se a aposta se sustenta: (1) taxa de conclusão dos episódios verticais — se o público assiste até o fim; (2) conversão para a novela-mãe — quantos migram do microdrama para o horário nobre; (3) receita publicitária incremental — se anunciantes pagam prêmio pelo formato.
Até lá, o Globoplay segue como laboratório. Cada lançamento mensal testa linguagem, elenco, duração e janela de distribuição. O anúncio de 2027 não é o fim do experimento — é a validação de que o experimento funcionou o suficiente para virar regra.
