Saúde

O exército invisível que chega ao Ceará em outubro: mosquitos que não transmitem dengue

Mosquitos Aedes aegypti com Wolbachia sendo liberados por técnicos em laboratório no Ceará
Liberação de mosquitos com Wolbachia em Eusébio, Maranguape e Crato para combater arboviroses

Mosquitos Aedes aegypti carregando a bactéria Wolbachia começam a ser soltos neste mês em Eusébio, Maranguape e Crato. A tecnologia, chamada Método Wolbachia, promete substituir a população vetora por insetos incapazes de transmitir dengue, zika e chikungunya. Os primeiros resultados epidemiológicos, porém, só devem aparecer daqui a um ou dois anos.

Como funciona a “troca” da população de mosquitos

A Wolbachia é uma bactéria presente naturalmente em 60% das espécies de insetos, mas ausente no Aedes aegypti. Quando introduzida nas fêmeas, ela bloqueia a replicação dos vírus dentro do mosquito. Não há modificação genética, nem uso de inseticidas.

O processo ocorre em ciclos de 26 semanas. Pequenos recipientes verdes — os Dispositivos de Liberação de Ovos (DLOs) — recebem cápsulas com ovos infectados. Em 15 dias, os “Wolbitos” eclodem e colonizam o entorno. Em Eusébio, a primeira fase cobre nove bairros e atinge 32.625 pessoas, quase 40% da população municipal.

Por que estas três cidades foram escolhidas

O Ministério da Saúde definiu os municípios iniciais com base em três critérios: relevância estratégica do território, capacidade operacional instalada e histórico de transmissão significativa. Eusébio sai na frente porque já possui estrutura logística e servidores treinados para instalar os DLOs de segunda a sexta-feira.

Maranguape e Crato seguem cronogramas próprios. No Crato, oito localidades passam por pesquisa de pré-liberação. Em Maranguape, a prefeitura promete divulgar áreas contempladas e ações de mobilização comunitária nas próximas semanas.

O que os números dizem sobre o método

  • Origem: Universidade de Queensland, Austrália, 2009
  • Chegada ao Brasil: 2015, via Fiocruz e World Mosquito Program
  • Fábrica atual: Curitiba (PR) — única no país
  • Prazo de liberação em Eusébio: até março de 2027
  • Efeito epidemiológico esperado: 1 a 2 anos após estabelecimento da população

Uma aposta profilática, não reativa

“Não esperamos o caos para agir”, resume Jorge Costa, assessor técnico da Fiocruz. A estratégia é preventiva: implantar a tecnologia enquanto os números de casos ainda são baixos. O alerta vem do cenário climático — o El Niño pode alterar padrões de transmissão em todo o território nacional nos próximos meses.

Gabriel Sylvestre, gerente de implantação da Wolbito no Brasil, reforça: o objetivo entomológico (a troca dos mosquitos) vem primeiro. A redução de doenças é consequência medida no médio prazo.

Fábrica no Nordeste está no radar

Com a expansão do programa para outros municípios cearenses e estados vizinhos, a demanda por ovos infectados vai crescer. Carla Celedônio, coordenadora da Fiocruz Ceará, confirmou que Ministério da Saúde, Fiocruz, Instituto de Biologia Molecular do Paraná e a própria Wolbito já discutem a instalação de uma unidade de produção no estado. Hoje, a fábrica paranaense atende a demanda inicial, mas não comporta a escala nacional projetada.

O que observar nos próximos meses

Acompanhe a divulgação dos cronogramas detalhados em Maranguape e Crato. Monitore os relatórios de monitoramento entomológico — a porcentagem de mosquitos com Wolbachia na natureza é o indicador líder de sucesso. E fique atento a editais de expansão: a política pública prevê escalar o método para dezenas de municípios nos próximos anos, o que pode abrir oportunidades para fornecedores locais de logística, insumos e serviços de campo.