Faltam dez dias para o segundo turno de 2026 e a campanha entra na reta final com agendas que expõem as duas faces do eleitorado. Nesta quinta-feira, Lula concede entrevista ao vivo à TV Globo às 21h15, enquanto Flávio Bolsonaro comanda ato em Capelinha (MG) ao lado de Nikolas Ferreira e do governador Cleitinho Azevedo. O que parece apenas agenda de campanha carrega sinais claros sobre o rumo da política econômica nos próximos quatro anos.
O peso da entrevista na Globo
A sabatina com Renata Lo Prete, definida por sorteio, coloca o presidente diante do maior alcance televisivo do país. Não é só exposição: é o momento em que Lula precisa traduzir para o eleitor médio as vitórias legislativas da véspera. A aprovação do novo teto do MEI — 461 votos a 4 na Câmara — e o fim da escala 6×1 — 75 a 1 no Senado — chegaram com apoio expressivo de parlamentares do PL e Republicanos.
Para o setor produtivo, a entrevista funciona como termômetro. O tom adotado ao falar de reformas tributária, fiscal e trabalhista indicará se o segundo mandato prioriza negociação ou confronto.
O palanque mineiro e a base bolsonarista
Enquanto Lula fala para o Brasil inteiro, Flávio Bolsonaro aposta na capilaridade do interior. O “Bloquinho do 22” em Capelinha reúne duas figuras que votaram com o governo nos últimos dias: Nikolas Ferreira (MEI) e Cleitinho Azevedo (6×1). O simbolismo é deliberado: mostrar que a oposição não é monolítica e que pautas de custo Brasil podem unir extremos.
A transmissão prévia no YouTube, às 18h, amplia o alcance digital — território onde a direita tem vantagem histórica de engajamento.
Duas vitórias legislativas com digitais da oposição
Os números da véspera não mentem:
- Projeto MEI: ampliação do faturamento e anistia de dívidas — 461 x 4 na Câmara.
- Fim da escala 6×1: PEC aprovada em dois turnos no Senado — 75 x 1.
Ambas seguem tramitação: o texto dos MEI vai ao Senado; a PEC da jornada segue para promulgação. O governo colhe os louros, mas a base bolsonarista carimbou as duas. Para o empresário, isso significa que pautas de desburocratização e flexibilização trabalhista têm viabilidade real, independentemente de quem vencer.
O que o mercado deve monitorar na próxima semana
A agenda de sexta-feira inverte os papéis: Flávio Bolsonaro vai à Globo; Lula faz live. O contraste de formatos — TV aberta versus redes sociais — revela as estratégias de comunicação para os últimos dias. Mais relevante: observe como cada candidato trata as duas pautas aprovadas. Quem assume a autoria? Quem propõe o próximo passo?
Outro ponto: a PEC da jornada 6×1, uma vez promulgada, exigirá regulamentação. O Ministério do Trabalho da próxima gestão ditará o ritmo. Setores de comércio, serviços e indústria de turnos contínuos já preparam cenários de adaptação.
Cenários para o dia 26
Com Datafolha recente mostrando rejeição de 46% para Lula e 44% para Flávio Bolsonaro, a eleição está aberta. A aprovação do governo oscila em 48%. Números assim exigem que o empresariado prepare dois planos de jogo: um para continuidade com ajustes, outro para guinada liberal com base parlamentar fragmentada.
O Congresso que emerge dessas votações — disposto a aprovar pautas de custo Brasil com maiorias amplas — pode ser o ator mais relevante de 2027 em diante. Quem sentar na cadeira principal terá de negociar com ele.
O que observar daqui para frente
Três sinais concretos para as próximas 72 horas: (1) o tom de Lula sobre a PEC da jornada na entrevista; (2) a adesão de governadores do Sudeste ao palanque de Flávio; (3) a tramitação do projeto MEI no Senado — se houver alterações, o impacto no caixa dos pequenos negócios muda na hora. Quem lê apenas manchetes perde o timing. Quem acompanha a tramitação, antecipa decisões.
