Felipe Araruna pendurou as chuteiras aos 30 anos após três cirurgias no joelho e uma ruptura de tendão patelar que encerrou sua passagem pelo Reading, da Inglaterra. O volante que subiu aos profissionais do São Paulo sob comando de Rogério Ceni hoje lidera um projeto de inteligência artificial voltado para vendas corporativas. A transição não foi um plano B — era uma estratégia montada anos antes do último apito.
Sua última partida oficial durou cinco minutos. Em janeiro de 2022, entrou em campo na derrota para o Kidderminster pela Copa da Inglaterra e sentiu que o corpo não respondia mais. “Parei de acreditar no meu próprio corpo”, admite. O desgaste mental, diz ele, superou o físico.
O diploma que ninguém viu na concentração
Enquanto a torcida gritava no Morumbi, Araruna cursava Administração. Quatro anos de faculdade conciliados com viagens, concentrações e jogos pelo time profissional. Nos dois últimos anos de graduação, ele abria o laptop no avião para entregar trabalhos entre uma partida e outra.
Na segunda-feira seguinte a um clássico, sentava na sala de aula ao lado de colegas que o tinham visto na TV no domingo. “Era engraçado, mas levava numa boa”, conta. A formação não foi por acaso: os pais exigiram que a escola viesse antes do sonho da bola.
Dinheiro, pandemia e a blindagem financeira
A preocupação com o pós-carreira também passou pelo bolso. Desde o primeiro contrato, a família manteve um assessor financeiro próximo. Durante a pandemia, Araruna fez curso de investimentos e aprofundou o conhecimento em renda variável e planejamento de longo prazo.
Essa estrutura permitiu algo raro no futebol: dizer não a propostas ruins e esperar o projeto certo. “Se não tivesse alguém ao meu lado, talvez não tivesse a tranquilidade de abrir outras portas”, afirma.
- 42 jogos pelo São Paulo (2017–2019)
- 3 cirurgias no joelho entre Brasil e Inglaterra
- 5 minutos em campo na última partida oficial (jan/2022)
- 4 anos de faculdade cursados durante a carreira
De volante a empreendedor de IA
O convite para o projeto atual veio de um amigo do setor de tecnologia. A proposta: criar uma ferramenta que use inteligência artificial para organizar processos comerciais de empresas — do funil de vendas à previsão de fechamento.
“É uma ferramenta de vendas com metodologia e inteligência”, resume. Araruna entra com a visão de performance e gestão que viveu no esporte de alto rendimento; os sócios técnicos constroem a arquitetura do modelo. O produto está em fase de validação com clientes piloto.
O futebol não morreu — só mudou de lado
Araruna não descarta voltar ao esporte, mas agora como gestor. Teve contato com projetos de SAF, atuou em agência de atletas e no ramo têxtil. “Toparia um desafio, dependendo da função. O futebol brasileiro é complexo, mas tem espaço para melhorar”, diz.
Enquanto isso, mantém a rotina de atleta: treino diário, tênis, academia. A disciplina que construiu no CT da Barra Funda agora serve para testar hipóteses de produto, levantar métricas e escalar um negócio que nasceu da dor de quem sabe o que é recomeçar do zero.
O que observar nos próximos passos
A transição de Araruna espelha um movimento silencioso: atletas que investem em educação e finanças durante a carreira chegam ao fim do contrato com poder de escolha. O caso dele mostra que a preparação antecipada — não a sorte — define quem dita as regras do jogo seguinte. Para quem acompanha o mercado de SAFs e gestão esportiva, seu nome deve reaparecer em breve em outra função. A pergunta não é se, mas onde.
