A Beltic, startup de um catarinense no Vale do Silício, captou US$ 7,3 milhões para criar o “RG” dos agentes de IA que farão compras e pagamentos em seu nome. A rodada seed, liderada pela Norwest Venture Partners, sinaliza que o mercado aposta alto na economia agêntica — mas poucos entendem o risco invisível por trás dela.
Os sistemas antifraude atuais foram feitos para humanos: analisam cliques, localização, dispositivo. Agentes de IA quebram essa lógica. Como um banco sabe se quem está comprando a passagem é você ou um bot alucinando?
As três camadas que separam um agente confiável de um golpe
Mike Allan, cofundador da Beltic, explica que a verificação acontece em três estágios. Cada um fecha uma brecha que os sistemas tradicionais ignoram:
- Identidade: o agente prova quem o representa — pode ser um e-mail cadastrado ou, em transações altas, uma selfie ou documento do usuário real.
- Autorização: o protocolo do agente é analisado para confirmar se ele ainda segue a intenção original do humano.
- Execução fiel: o sistema compara o pedido inicial com o que está sendo efetivamente comprado — atributos, valores, condições — e bloqueia se houver desvio.
“Um agente pode interpretar ‘compre a passagem mais barata’ e ignorar que você só voa com bagagem despachada. Ou alucinar no meio do caminho”, diz Allan. O sistema da Beltic emite sinal de risco ou trava a transação nesses casos.
O caos dos protocolos e a aposta multi-rede
Visa, Mastercard, Amex, Google: cada gigante criou seu próprio padrão para agentes interagirem com varejo e pagamentos. Para um lojista, integrar tudo sozinho é inviável. A Beltic entra como camada única — multi-protocolo — permitindo que bancos e e-commerces aceitem agentes sem construir pontes caseiras.
O produto já roda em testes com clientes selecionados. A infraestrutura para essa economia começou a ser erguida há apenas 12 meses, mas a fragmentação é o maior obstáculo hoje.
De Timbó ao Vale: a trajetória do fundador
Mike Allan nasceu em Timbó (SC) e vendeu sua startup anterior, a Atar, para a Porto cinco anos atrás. Na Beltic, divide o comando com Isha Bhatnagar, ex-Coinbase com seis anos de experiência em verificação de identidade (KYC). A combinação — conhecimento local de fraude bancária + escala global de crypto — atraiu investidores de peso.
Além da Norwest (US$ 1 bi sob gestão), entraram Restive Ventures e Oxford Seed Fund. No pré-seed, um ano antes, Collide Capital, Latitud e Positive Ventures lideraram US$ 1,5 milhão.
Não espere que bots dominem tudo — mas prepare-se para o híbrido
Allan não acredita que em dois ou três anos a maioria das transações será automática. “E-commerce tem gente que gosta de navegar. Mas achar seguro, provedor, automatizar pagamentos de risco alto? Isso vai para os agentes.”
O cenário provável: sistemas híbridos onde humanos decidem e agentes executam — com dinheiro real em jogo. Erros não são opcionais.
O que observar daqui para frente
Fique de olho na padronização de protocolos entre bandeiras e big techs — quem ditar o padrão captura o fluxo. Acompanhe também regulações de responsabilidade: quando o agente erra, quem paga a conta? E teste, desde já, soluções de verificação multi-camada em sandbox. A infraestrutura invisível da economia agêntica está sendo escrita agora; quem entende as regras do jogo antes dos outros define o preço da confiança.
