A maior farmacêutica brasileira protocolou na Camex um pedido para mais que dobrar a alíquota de importação das canetas de semaglutida e liraglutida que chegam prontas do exterior. A medida atinge diretamente concorrentes como Novo Nordisk, Hypera e Eurofarma. Se aprovada, a taxa salta de 7,2% para 15% e pode redesenhar a disputa de preços nas farmácias.
O movimento acontece meses depois de a EMS lançar sua própria versão do medicamento, o Ozivy. A empresa argumenta que há distorção tributária: enquanto a caneta final paga pouco imposto, os componentes para fabricá-la no Brasil — como o corpo do dispositivo e o fenol — são taxados entre 12% e 18%.
Por que o pedido gera polêmica no setor
Concorrentes e o Sindusfarma (sindicato da indústria) classificam a estratégia como protecionismo disfarçado. A entidade afirma que o fortalecimento da indústria nacional passa pela redução do custo Brasil, não pelo aumento de barreiras para quem importa. A tese é que a concorrência em igualdade de condições beneficia o paciente final.
A EMS rebate dizendo que investiu mais de R$ 1 bilhão em capacidade produtiva e tecnologia de peptídeos em Hortolândia (SP). A farmacêutica sustenta que a mudança não encareceria o produto ao consumidor, pois os preços máximos são tabelados pelo governo — embora, na prática, as canetas sejam vendidas abaixo desse teto.
O que está em jogo nos dois pedidos protocolados
A empresa apresentou duas frentes de batalha na Câmara de Comércio Exterior:
- Pedido temporário: válido por 24 meses, depende apenas de decisão do governo brasileiro.
- Pedido permanente: exige aprovação dos demais países do Mercosul, o que alonga o prazo.
Ambos miram canetas de semaglutida (como Wegovy e Ozempic) e liraglutida (base do Saxenda). Ficam de fora o Mounjaro (tirzepatida), da Eli Lilly, protegido por patente até 2036 e já produzido no Brasil.
O efeito cascata nos preços e no abastecimento
Desde a queda da patente do Ozempic, a Anvisa aprovou 14 novas canetas apenas em 2026. A entrada de genéricos e similares — muitos vindos da Índia, como o da Sun Pharma distribuído pela Hypera — derrubou os valores nas gôndolas. O aumento da alíquota pode frear essa queda ou até reverter a tendência, dependendo de como as importadoras repassarem o custo extra.
Do lado da EMS, os números mostram fôlego comercial: R$ 61,3 milhões faturados em 2025 e R$ 425,1 milhões em 2026, ano do lançamento da semaglutida própria. A empresa nega que o nome “Ozivy” tenha sido inspirado nos rivais, mas a Novo Nordisk move ação judicial contra a marca.
O que observar daqui para frente
A decisão da Camex deve sair nos próximos meses e servirá de termômetro para a política industrial do governo: proteger quem produz localmente ou manter a porta aberta para a competição de preços via importação. Para gestores de farmácias, distribuidores e investidores, o sinal de alerta está ligado. Uma alíquota maior pode comprimir margens de quem importa e reduzir a variedade de marcas disponíveis — justo num momento em que o acesso ao tratamento de obesidade e diabetes ganhou prioridade no debate público e no SUS.
