A Robinhood acaba de abrir as portas para um mercado que nunca dorme. A corretora californiana anunciou negociação de ações e ETFs nos finais de semana e prepara o lançamento de agentes de inteligência artificial nativos no aplicativo — ferramentas que, até hoje, eram exclusividade de fundos quantitativos de Wall Street.
A mudança redefine o que o investidor pessoa física pode fazer com o celular na mão. Mas o verdadeiro impacto vai além do horário estendido.
O fim do “fechado até segunda”
Em parceria com a Bruce Markets, a Robinhood vai rotear ordens pela Bruce ATS, uma plataforma de negociação alternativa (ATS) que opera sobre a infraestrutura da Nasdaq. A liquidação e a custódia ficam a cargo da Apex Clearing, já sócia da Bruce.
O aporte na Bruce Markets — ao lado da Peak6 Investments — sinaliza comprometimento de longo prazo. A lista de investidores da Bruce já incluía Fidelity, Nasdaq Ventures, NH Investment, Tastytrade e Webull. O valor da rodada não foi divulgado.
Steve Quirk, chief brokerage officer da Robinhood, resume a lógica: notícias que movem preços não respeitam o horário comercial. Com trading 24/7, o investidor reage em tempo real, não na abertura de segunda-feira.
Agentes de IA: do sandbox para o bolso de 28 milhões
O anúncio mais ambicioso veio em Houston, durante evento da empresa. Vlad Tenev, fundador e CEO, apresentou o agentic trading — agentes autônomos que analisam, decidem e executam operações.
Hoje, a Robinhood já permite conectar ferramentas externas, como o Claude da Anthropic, a um tipo de conta criado especificamente para isso. Resultado: mais de 150 mil clientes aderiram em poucos meses. A meta agora é integrar a tecnologia direto no app, democratizando o acesso para toda a base de 28 milhões de usuários.
Segurança por arquitetura, não por promessa
Tenev antecipou o ceticismo. A arquitetura foi desenhada com três travas principais:
- Sandbox isolado: o agente opera em ambiente separado, sem acesso ao saldo principal nem à conta de aposentadoria.
- Conta dedicada: recursos alocados para o agente ficam segregados do patrimônio core do cliente.
- Aprovação por padrão: toda operação exige autorização do usuário. A autonomia total existe, mas vem desligada de fábrica.
“Projetamos o produto com a segurança em mente desde o início”, disse Tenev à CNBC, afastando o risco de alucinações causarem prejuízos não autorizados.
De “cassino de memes” a plataforma de US$ 1,3 bi por trimestre
A narrativa de aplicativo especulativo para Gen-Z ficou no passado. No último trimestre, a receita bateu recorde: US$ 1,3 bilhão, alta de 32% ano a ano. A empresa hoje opera 13 linhas de negócio distintas, cada uma faturando mais de US$ 100 milhões anuais.
O destaque surpreendente vem dos event contracts — contratos de previsão sobre resultados reais (eleições, indicadores econômicos, dados corporativos). Lançado há pouco mais de um ano, o segmento gerou US$ 156 milhões no trimestre e virou prioridade estratégica.
Para comparação: corretagem de ações rendeu US$ 129 milhões; opções, US$ 342 milhões. Juntos, ainda representam pouco mais de um terço da receita total.
O que vem a seguir: derivativos corporativos e futuros perpétuos
Dois lançamentos aguardam sinal verde regulatório. O primeiro são contratos ligados a resultados corporativos — novos instrumentos da CBOE Global Markets que permitem apostar se uma empresa superará métricas específicas, como volume de vendas. Depende de aval da SEC.
O segundo são futuros perpétuos de criptomoedas — derivativos sem data de vencimento — distribuídos via Bitstamp, exchange adquirida pela Robinhood em 2024.
O que observar daqui para frente
A ação subiu 65% nos últimos seis meses, recuperando o tombo do primeiro trimestre. No ano, acumula variação próxima de zero. Valor de mercado: US$ 102 bilhões na Nasdaq.
Três variáveis vão ditar o próximo capítulo: aprovação da SEC para contratos corporativos, adoção real dos agentes de IA pela base ampla (além dos 150 mil early adopters) e a capacidade da Bruce ATS de entregar liquidez consistente nos finais de semana. Se as três engrenarem, a Robinhood deixa de ser uma corretora com app bonito e vira infraestrutura de mercado para o varejo global.
