O presidente Lula assinou a medida provisória que proíbe apostas online no país, mas uma consultoria britânica alerta: o efeito colateral pode ser um tsunami de R$ 25 bilhões anuais migrando para sites ilegais. A receita bruta do mercado regulado, hoje na casa dos R$ 40 bilhões, não vai desaparecer — ela vai mudar de endereço. A pergunta que fica é se o bloqueio de pagamentos via Pix e TED conseguirá estancar essa sangria.
O tamanho do buraco: para onde o dinheiro vai
Segundo a H2 Gambling Capital, as casas licenciadas faturavam cerca de R$ 40 bilhões por ano em GGR (receita bruta de jogo). A projeção é de que 60% desse volume continue sendo apostado, agora em plataformas sem autorização, sem tributação e sem proteção ao jogador.
A margem da estimativa varia entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões. O valor final depende de duas variáveis críticas:
- Eficácia do bloqueio financeiro: A MP veda transferências via Pix ou TED para CNAEs ligados a apostas.
- Sobrevivência jurídica: Como é medida provisória, o texto expira em 120 dias se o Congresso não o converter em lei.
O golpe nos cofres e nos cofres das operadoras
Desde 2024, o governo arrecadou R$ 30 milhões por cada uma das 85 autorizações vendidas, com validade de cinco anos. O ministro Dario Durigan já avisou: não há previsão de devolução desse dinheiro às empresas.
Enquanto o Executivo segura a receita das outorgas, as associações do setor correm ao STF e ao Centrão. A ANJL pediu a suspensão da MP no Supremo, e articulações no Congresso tentam reverter o veto. O cenário é de incerteza total para quem pagou para operar dentro da lei.
O jogador já estava do outro lado
O dado mais revelador vem de uma pesquisa da própria H2 com 2.451 apostadores brasileiros, feita em novembro de 2025. Mesmo com a regulamentação em vigor:
- 39% dos entrevistados ainda usavam sites sem licença;
- Esse grupo respondia por cerca de 60% do gasto total declarado.
“Para esses jogadores, a proibição elimina apenas a opção licenciada; suas contas em plataformas offshore e rotas de pagamento já existem”, resume o relatório. A migração não é um risco futuro — é um comportamento presente.
Cenários: o mercado ilegal dobra de tamanho
A consultoria traça dois cenários baseados na participação prévia do mercado negro:
- Cenário conservador (30% de base ilegal): Salto de R$ 17 bi para R$ 42 bi.
- Cenário expandido (41% de base ilegal): Salto de R$ 28 bi para R$ 53 bi.
Nos dois casos, o acréscimo líquido é idêntico: R$ 25 bilhões anuais a mais na ilegalidade. Para efeito de comparação, o mercado clandestino projetado (R$ 42 bi) praticamente iguala o volume total que circulava antes de qualquer regulação, em 2024.
A lição da Holanda e o fim da “meia saída”
A H2 compara o Brasil à Holanda, onde aumento de impostos e limites de depósito, no fim de 2024, fizeram metade da queda do mercado regulado reaparecer em sites estrangeiros. A diferença crucial: lá, o jogador podia apenas gastar menos. Aqui, a proibição total deixa apenas duas portas: migrar para o exterior ou parar de jogar.
Quem migra leva consigo o hábito de gasto. Quem para representa receita perdida para todos — exceto para o crime organizado, que passa a intermediar o fluxo financeiro sem qualquer controle.
O que observar daqui para frente
A MP tem validade até janeiro de 2026. Até lá, três movimentos definirão o tabuleiro: a votação no Congresso (onde o Centrão tem peso), a decisão do STF sobre o pedido da ANJL e a capacidade técnica do Banco Central de bloquear rotas de pagamento offshore sem afetar outros setores.
A H2 projeta que o mercado deve ser reaberto em 2027, já incluindo cassino online. Para investidores e empresários, o sinal é claro: a regulação não morreu, apenas entrou em um hiato caro e perigoso. Quem conseguir manter estrutura e compliance ativos durante a tempestade largará na frente quando as portas se abrirem novamente.
