Saúde

Anvisa investiga 13 casos de cegueira súbita; Ozempic lidera lista

Caneta Ozempic com alerta vermelho e ícone de olho representando risco de cegueira súbita
Anvisa investiga 13 casos de cegueira súbita ligados a canetas GLP-1 como Ozempic

A Anvisa confirmou nesta segunda-feira (28) a investigação de 13 relatos de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA) em usuários de canetas emagrecedoras à base de GLP-1. A condição rara pode causar perda irreversível da visão e acende um alerta para milhões de brasileiros que utilizam esses medicamentos.

O regulador reforça que as notificações não comprovam relação causal, mas a coincidência temporal exige apuração rigorosa. Entenda abaixo o que está em jogo e quais sinais exigem corrida ao pronto-socorro.

O raio-x das 13 notificações

Dos casos sob análise, a maioria absoluta envolve o princípio ativo semaglutida. A distribuição por marca comercial revela a amplitude do monitoramento:

  • Ozempic: 5 casos
  • Wegovy: 3 casos
  • Wegovy FlexTouch: 2 casos
  • Rybelsus (via oral): 2 casos
  • Mounjaro (tirzepatida): 1 caso

Ao todo, 12 registros ligam-se à semaglutida e apenas um à tirzepatida. A agência ressalta que o número reflete suspeitas notificadas, não diagnósticos confirmados de causalidade.

O que é a NOIA e por que ela assusta

A NOIA ocorre quando o fluxo sanguíneo para o nervo óptico é interrompido bruscamente. Sem oxigenação, as fibras nervosas que levam a imagem ao cérebro morrem, resultando em perda visual súbita, indolor e, frequentemente, permanente em um dos olhos.

Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que a doença é rara na população geral, mas pacientes com diabetes tipo 2, hipertensão, obesidade ou histórico cardiovascular já possuem risco basal elevado por questões vasculares próprias. O desafio é separar o risco da doença de base de um eventual efeito do fármaco.

Quem corre mais risco? Os sinais de alerta

A orientação médica é unânime: não interrompa o tratamento por conta própria. O benefício metabólico costuma superar o risco estatístico da complicação ocular. No entanto, a vigilância ativa é indispensável. Procure emergência oftalmológica imediata se notar:

  • Escurecimento repentino de parte do campo visual (como uma cortina);
  • Visão embaçada súbita em apenas um olho;
  • Dificuldade para enxergar cores ou contrastes de forma aguda.

O diagnóstico precoce, embora não reverta a lesão na maioria dos casos, permite investigar outras causas tratáveis e proteger o olho contralateral.

O histórico: alerta anterior e endurecimento das regras

Esta não é a primeira vez que o tema vem à tona. Em junho de 2025, a Anvisa já havia determinado a inclusão da NOIA nas bulas de Ozempic, Wegovy e Rybelsus como reação adversa “muito rara”. Na ocasião, somavam-se cerca de 52 notificações de distúrbios oculares amplos ligados à semaglutida.

Como medida preventiva paralela, a agência passou a exigir retenção de receita médica para a venda de todos os agonistas do receptor GLP-1, dificultando o acesso sem acompanhamento profissional contínuo.

O que dizem os fabricantes

A Novo Nordisk, detentora da semaglutida, afirma que a relação causal “não pode ser confirmada com base na totalidade dos dados”. A empresa cita ausência de sinal em ensaios clínicos, inconsistência nos casos de pós-comercialização e inexistência de mecanismo biológico conhecido que ligue a droga à isquemia óptica. O posicionamento final mantém o perfil benefício-risco como favorável.

Já a Lilly, fabricante do Mounjaro (tirzepatida), declara manter discussões contínuas com autoridades regulatórias e reforça a orientação para que pacientes relatem qualquer efeito colateral ao médico prescritor.

O que observar daqui para frente

O desfecho da investigação da Anvisa ditará os próximos passos: desde a manutenção do status quo até novas restrições de uso ou alertas mais enfáticos nas bulas. Para o investidor e o gestor de saúde, o monitoramento da farmacovigilância ativa — e não apenas de relatos espontâneos — será o termômetro real da magnitude do problema. Pacientes em uso crônico devem agendar avaliação oftalmológica de rotina e manter o diálogo aberto com o endocrinologista sobre a relação risco-benefício individualizada.