Cultura

O último goleiro do rádio: o legado que o streaming não apagou

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Fiori Gigliotti, o "Locutor da Torcida Brasileira", em sua cabine de rádio nos anos dourados da narração esportiva.

Fiori Gigliotti faria 98 anos neste 27 de setembro, mas sua voz ainda ecoa em cabines que nem mais existem. O “Locutor da Torcida Brasileira” não apenas narrou gols — ele ensinou o país a ouvir futebol como quem lê um romance.

Nascido em Barra Bonita (SP) em 1928, ele estreou no microfone aos 17 anos, na Lins Rádio Clube. Da cabine modesta do interior ao Escrete de Ouro da Bandeirantes, percorreu um trajeto que hoje serviria de case para qualquer gestor de marca pessoal.

A anatomia de uma autoridade que não precisou de algoritmo

Antes de “engajamento” virar métrica, Fiori construía audiência com silêncio. A pausa antes do gol, a cadência medida, os bordões que viraram patrimônio cultural: tudo isso era estratégia pura, embora ele nunca usasse esse termo.

Sua cobertura da era Pelé no Santos não foi coincidência. Em 1959, estava em Lisboa quando o time goleou o Botafogo por 4 a 1 no torneio Teresa Herrera. Em 1960, viajou a Roma com a delegação. Estava lá quando a história acontecia — e sabia que estar presente valia mais que qualquer release.

O que os números não contam sobre a era de ouro do rádio

Dados concretos da carreira desenham um mapa de influência:

  • 1945: estreia aos 17 anos em Lins (SP)
  • Décadas de 50 a 90: voz central no Escrete da Bandeirantes
  • 1982: cobre Copa da Espanha ao lado de Osmar Santos e Ennio Rodrigues
  • 1991: candidata-se a deputado estadual pelo PMDB — 48.321 votos
  • 2008: homenageado no Museu do Futebol na inauguração
  • 2014: Parque Sabesp Mooca leva seu nome, decreto assinado por Geraldo Alckmin
  • 2017: 1ª Corrida das Estâncias “Fiori Gigliotti” em Barra Bonita

Mas a planilha não explica por que gerações de narradores — de José Silvério a Milton Neves — o tratavam como mestre. A resposta está no que não se mensura: a confiança que ele transmitia ao ouvinte de que o jogo importava, independente do placar.

Quando o meio muda, a mensagem permanece?

Fiori viveu a transição do rádio AM para o FM, da transmissão local para a rede nacional, do microfone de fio para o satélite. Em 1998, no aeroporto de Orly, durante a Copa da França, uma greve de maleteiros atrasou a equipe da Record. Ele, aos 70 anos, manteve a calma que só a experiência dá — enquanto os mais jovens se desesperavam.

Essa adaptabilidade não foi passiva. Ele integrou equipes de futsal da Bandeirantes, participou do programa “Golaço” na Rede Mulher (2001-2007), dividiu mesa com Mauro Pinheiro, Flávio Araújo, Barbosa Filho. Entendeu que o conteúdo migra, mas a credibilidade não.

O ativo invisível que sobrevive ao titular

Morreu antes de 2012 — o filho Marcelo visitou a redação do Terceiro Tempo naquele ano. A esposa Adelaide partiu em 2016. O filho Marcelo, em setembro de 2020. Mas o Parque na Mooca, a corrida em Barra Bonita, a flâmula autografada da Copa de 66 guardada por colecionadores: tudo isso funciona como ativo de marca póstuma.

Para quem constrói carreira hoje, a lição não é nostálgica. É tática. Fiori não “viralizou”. Ele apareceu, dia após dia, com a mesma voz, o mesmo rigor, a mesma presença. Quando o Santos de Pelé bailava em La Coruña, ele estava lá. Quando o estádio de Garça inaugurou refletores em 1978, ele comandou o Escrete em campo. Quando a Nakata premiou os melhores do rádio em 1989, ele estava na foto, paletó cinza, mãos nos ombros do narrador Jorge Vinicius.

O que observar daqui para frente

O rádio esportivo brasileiro perdeu a “latinha” — o microfone antigo — mas ganhou podcasts, streaming, lives. A técnica mudou. A economia da atenção, não. Quem estuda a trajetória de Fiori Gigliotti encontra um modelo de longevidade baseado em três pilares: presença física nos eventos, consistência tonal ao longo de décadas e generosidade na formação de sucessores.

Milton Neves, seu fã de infância que virou colega, resume: “dividir mesas redondas com meu ídolo, sempre aprendendo com sua experiência e simplicidade”. O mercado ainda não criou métrica para isso. Mas quem ignora, perde a chance de construir algo que dure mais que o próximo trimestre.