Economia

Desenrola 3.0: Desconto de 90% e R$ 150 bi em dívidas — o que muda agora?

Ilustração do programa Desenrola 3.0 com desconto de 90% em dívidas de R$ 150 bilhões
Governo lança terceira fase do Desenrola com descontos de até 90% para dívidas antigas.

O governo federal acaba de lançar a terceira fase do Desenrola, mirando um estoque de R$ 150 bilhões em dívidas antigas com descontos mínimos de 90%. A operação prevê leilões do Tesouro para comprar carteiras “podres” de bancos e varejo, beneficiando quem está negativado há mais de dois anos. Mas o calendário real de pagamentos só começa em 2027.

A medida provisória sai em setembro, mas o dinheiro público só entra no jogo no ano que vem. Entenda como funciona a engenharia financeira por trás do programa e quem realmente entra na fila.

O mecanismo: Tesouro compra, credor leva prejuízo, devedor limpa o nome

A grande novidade do Desenrola 3.0 é a inversão da negociação direta. Em vez de o devedor procurar o banco, o Tesouro Nacional entra como comprador das carteiras de crédito considerado “irrecuperável”.

Como as dívidas têm entre dois e quatro anos e meio de atraso, a expectativa do governo é que credores aceitem abatimentos agressivos — daí o piso de 90% de desconto. O valor original do débito não pode passar de R$ 10 mil, considerando registros a partir de 25 de setembro de 2026.

Perfil da inadimplência: mulheres, varejo e contas básicas

Dados de agosto de 2026 mostram a dimensão do alvo: 83,9 milhões de pessoas negativadas, carregando R$ 592 bilhões em dívidas com até cinco anos de atraso. O recorte social é relevante:

  • 56% dos devedores são mulheres;
  • Média de quatro dívidas por pessoa;
  • Valor médio total por devedor: R$ 7 mil;
  • Valor médio por dívida individual: R$ 1,7 mil.

O detalhe que muda a análise de risco: 55% do estoque não é bancário. Varejo, telefonia, água e energia respondem pela fatia majoritária. Só contas de luz, água e gás somam cerca de 20% do total. Isso amplia o leque de credores nos leilões além do sistema financeiro tradicional.

Impacto fiscal: a conta de R$ 15 bilhões no Orçamento

O Ministério do Planejamento confirmou: a operação tem custo fiscal real. Se o desconto médio se confirmar, o impacto no resultado primário chega a R$ 15 bilhões. As despesas serão alocadas nos orçamentos de 2027 e 2028, submetidas às regras do arcabouço fiscal.

O ministro Bruno Moretti foi direto: os leilões ocorrem ainda em 2026, mas a execução financeira — o pagamento aos credores e a baixa nos birôs — começa apenas em fevereiro de 2027. Há um hiato de meses entre a homologação e o alívio real no bolso.

Cronograma enxuto: do edital ao bolso do devedor

O governo desenhou um rito rápido para tentar evitar o desgaste das versões anteriores:

  • Set/2026: MP alterando a Lei 14.690/2023;
  • Nov/2026: Chamamento público para credores;
  • Dez/2026: Envio das propostas de carteiras;
  • Jan/2027: Homologação dos lotes vencedores;
  • Fev/2027: Assinatura dos contratos e início dos descontos (à vista ou parcelado).

Expectativa realista: R$ 75 bi renegociados e 15 milhões de pessoas

A Fazenda projeta que, na prática, R$ 75 bilhões sejam efetivamente renegociados — metade do teto autorizado. A conta considera que parte dos credores não vai querer vender com tanto desconto e parte dos devedores não vai aderir ou não será localizada.

A meta é alcançar até 15 milhões de beneficiários. O Ministério da Fazenda ainda definirá critérios de renda e prioridade de atendimento, o que pode restringir o universo final.

O que vem junto: o pacote anti-apostas

No mesmo evento, o governo anunciou medida provisória para proibir cassinos online (incluindo “jogo do tigrinho”) e endurecer regras para bets esportivas. Projeto de lei enviado ao Congresso tipifica crimes no setor.

A conexão é direta: no Desenrola 2.0, o governo bloqueou CPFs de apostadores por 12 meses. A avaliação oficial é que o boom das apostas acelerou o endividamento das famílias de baixa renda — justamente o público-alvo do programa.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o sucesso ou o esquecimento desta fase: a adesão dos credores não bancários (varejo e utilities) aos leilões, a capacidade operacional dos birôs de crédito para processar as baixas em massa a partir de fevereiro de 2027, e o comportamento da inadimplência nova — se o alívio do estoque antigo não for acompanhado de renda real, o ciclo recomeça. Para investidores e gestores de carteira, o sinal está no volume de aquisições do Tesouro nos leilões de dezembro: é ali que se mede o apetite real do mercado por esse papel.