O Nubank colocou na mesa uma proposta que pode redefinir o xadrez global das fintechs: a aquisição do banco digital britânico Monzo por até 10 bilhões de libras (cerca de R$ 69 bilhões). As conversas estão em estágio preliminar, mas a movimentação já ecoa como um revés estratégico para a Bolsa de Valores de Londres, que via na fintech britânica sua grande aposta para uma abertura de capital (IPO) de peso.
Se confirmado, o negócio seria pago em uma combinação de caixa e ações da Nu Holdings, controladora do Nubank listada em Nova York. A avaliação discutida — entre 8 e 10 bilhões de libras — representa um prêmio generoso sobre a última rodada de 2024, que precificou o Monzo em 4,5 bilhões de libras.
Por que o Monzo aceitaria vender agora?
A fintech britânica vive um momento de encruzilhada. No ano passado, uma rebelião de investidores — capitaneada por gestoras como Accel e Iconiq — abalou a governança da empresa após a saída repentina do CEO TS Anil. Acionistas exigiram mudanças no conselho e maior representatividade.
A nova presidente-executiva, Diana Layfield, assumiu em fevereiro com mandato claro: cortar perdas e focar na Europa. Ela encerrou a operação nos Estados Unidos e abriu portas na Irlanda e na Espanha. Paralelamente, o Monzo negociava com fundos de *private equity* a venda de até 15% da empresa ou uma nova rodada de *venture capital*. A oferta do Nubank surge como uma alternativa de liquidez total e imediata.
Os números que sustentam a conversa
Apesar da turbulência interna, os fundamentos operacionais do Monzo melhoraram no último exercício fiscal, encerrado em março de 2026:
- Lucro antes de impostos: 87,3 milhões de libras (alta de 44% ano a ano);
- Receita: 1,7 bilhão de libras, crescimento de 39%;
- Base de clientes: 16 milhões, concentrados quase totalmente no Reino Unido.
O banco também busca diversificar receitas, expandindo a carteira de crédito e lançando serviços como eSIM para celulares. Ainda assim, a sombra do rival Revolut — com 80 milhões de clientes em 40 países — pesa na capacidade do Monzo de escalar sozinho.
O tabuleiro do Nubank: Américas e Europa
Para o Nubank, avaliado em US$ 65 bilhões e dono de 140 milhões de clientes na América Latina, a aquisição resolve duas equações de uma só vez. A primeira é geográfica: ganha entrada imediata no mercado europeu regulado, com licença bancária plena e marca forte no Reino Unido.
A segunda é tecnológica e de produto. O Monzo construiu uma plataforma proprietária robusta, distinta do modelo de “superapp” do Nubank. A integração das stacks tecnológicas pode acelerar o lançamento de novos produtos nos dois continentes.
Vale lembrar: o Nubank acaba de obter licença bancária nos EUA e já trava disputa direta com a Revolut pelo consumidor americano. Comprar o Monzo tira um ativo estratégico das mãos do concorrente europeu e cria um corredor Norte-Sul único no setor.
O entrave regulatório e o “não” de Londres
O caminho não é linear. Uma transação desse porte exigirá aval do Banco da Inglaterra (BoE), da FCA (autoridade de conduta financeira) e, provavelmente, do CMA (concorrência). Do lado brasileiro, o Banco Central também precisará chancelar a estrutura de capital da Nu Holdings pós-aquisição.
Para a Bolsa de Londres, o golpe é simbólico. O mercado local luta para reter *unicórnios* de tecnologia; perder o Monzo para um comprador latino-americano reforça a narrativa de que o Reino Unido virou “incubadora” de ativos que acabam listados ou comprados no exterior.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis ditarão o desfecho: a disposição dos atuais acionistas do Monzo em aceitar ações do Nubank (expostas à volatilidade do dólar e ao risco Brasil), o crivo regulatório transatlântico e a capacidade de Diana Layfield manter a execução operacional durante a *due diligence*.
Enquanto a papelada avança, o mercado fará as contas: a sinergia entre a máquina de aquisição de clientes do Nubank e a engenharia de produto do Monzo justifica o prêmio de 100% sobre a última avaliação? A resposta definirá se veremos o nascimento do primeiro grande banco digital verdadeiramente global nascido no Sul Global.
