O CEO da FlixBus no Brasil, Edson Lopes, afirma que nenhuma das linhas da empresa foi aprovada pela via administrativa na ANTT — todas dependeram de decisões judiciais. São cerca de 2 mil pedidos parados na agência, alguns há anos, enquanto a demanda por transporte interestadual só cresce. O que impede a liberação?
Lopes nega confronto, mas descreve um cenário onde interesses políticos e econômicos sobrepõem-se ao interesse público. A seguir, os pontos centrais da entrevista que expõe os bastidores da regulação no setor.
Como a FlixBus chegou até aqui
A multinacional de origem alemã entrou no mercado brasileiro operando em parceria com empresas já autorizadas — modelo validado pela própria ANTT por longo tempo. Quando a operação ganhou escala, a agência passou a questionar a legalidade do arranjo.
O resultado: zero autorizações administrativas concedidas. Cada nova linha exigiu ação judicial. Lopes classifica como “absurdo” o tratamento diferenciado, já que empresas tradicionais utilizam estrutura semelhante sem serem incomodadas.
O que os números revelam sobre a segurança
Um dos argumentos dos incumbentes é que players de baixo custo operariam com menos responsabilidade. Os dados contam outra história:
- Menor taxa de acidentes por quilômetro rodado que a média do setor
- Nenhuma pendência fiscal ou de compliance
- Custos operacionais maiores que os dos concorrentes tradicionais, segundo Lopes
“A narrativa é deles”, resume o executivo. “Se for olhar o histórico do setor tradicional, aí sim é terrível.”
A “janela extraordinária” que ninguém explica
A ANTT abriu uma janela extraordinária para análise de pedidos, com prazo até 10 de julho — data limite antes de decisão do STF. Mas as regras seguem obscuras:
- Não há clareza sobre a ordem de prioridade dos pedidos
- Não foi definido o ritmo de análise
- Não se sabe se haverá nova janela após o prazo
“Devolvo a pergunta para a agência: qual é a regra?”, questiona Lopes. A indefinição gera insegurança jurídica que, admite, afasta investimentos — não só no setor rodoviário.
O efeito nas rotas menos rentáveis
Quando a FlixBus consegue abrir linha via judicial, a reação do mercado chama atenção. Lopes relata casos em que rotas lucrativas para todos foram abandonadas após pressão de players maiores sobre os menores.
Na principal rota do país, São Paulo–Rio de Janeiro, a oferta não caiu — mas os preços subiram. E quase não há linhas novas sendo lançadas pela via administrativa.
O que observar daqui pra frente
Lopes mantém o plano de investimento no Brasil, mas condiciona a expansão a um ambiente regulatório previsível. Dois movimentos merecem atenção nos próximos meses: o desfecho da janela extraordinária na ANTT e a decisão do STF que pode redesenhar as regras de entrada no setor. Se a regulação continuar refém de interesses setoriais, o custo final será pago pelo passageiro — com menos opções e preços mais altos.
