Cultura

Bispos falam em “soberania” e rumor sobre padroeira vira arma eleitoral na reta final

Bispos da Amazônia celebram missa em Manaus, incluindo dom Frei Samuel Ferreira, em vídeo viral sobre soberania
Vídeo de bispos da Amazônia usando termo "soberania" viraliza como apoio a Lula às vésperas do primeiro turno.

Bispos da Amazônia e o arcebispo emérito de Aparecida usaram o termo “soberania” em missas recentes, e o vídeo viralizou como trunfo da campanha de Lula (PT) a dias do primeiro turno. A coincidência com o vocabulário oficial do Planalto acendeu o alerta na própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

O estopim foi um vídeo publicado em 21 de setembro com dom Frei Samuel Ferreira, bispo auxiliar de Manaus, e outros prelados do Regional Norte 1. “É importante a soberania do Brasil, a soberania da nossa Amazônia, a soberania das nossas riquezas”, diz o religioso. Dias antes, dom Orlando Brandes, em Aparecida, declarara: “Nenhum poder de fora, seja quem for, deve mandar aqui”.

Por que a palavra “soberania” virou problema interno

Dom Francisco Lima, bispo de Carolina (MA) e coordenador do Grupo de Análise de Conjuntura da CNBB, confirmou à reportagem que a entidade classificou “soberania” como termo a ser evitado pelo clero durante o período eleitoral. “Tentamos não fomentar termos que polarizam mais ainda, porque não ganhamos nada com isso”, afirmou.

A orientação oficial da CNBB, divulgada em 18 de junho, pede que religiosos não se envolvam em campanhas. O documento cita “desigualdade social, corrupção, compra de votos, fake news” e defende “confiança nas instituições democráticas” — mas sem citar nomes.

  • Vídeo viral: Publicado em 21/09 pelo Regional Norte 1 da CNBB
  • Fala de Aparecida: Dom Orlando Brandes, missa de 7 de Setembro
  • Posição da CNBB: Termo “soberania” desaconselhado em reunião interna recente

O flanco de Nossa Senhora Aparecida

Paralelamente, perfis de esquerda associaram Flávio Bolsonaro (PL) a uma suposta articulação para retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. A alegação não tem lastro: o único projeto nesse sentido foi apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli (PMDB-MT), arquivado no ano seguinte. Flávio negou envolvimento e acionou o TSE.

Na sexta-feira (25/09), o ministro André Mendonça determinou a remoção de publicações que vinculassem o candidato à iniciativa. Meta, X, TikTok e YouTube foram notificados. Horas depois, Janja da Silva postou foto de Lula com a imagem da santa; Geraldo Alckmin (PSB) gravou vídeo prometendo “proteger e preservar tradições religiosas”.

O que dizem os números sobre o voto religioso

A divisão confessional aparece nítida no Datafolha de 24 de setembro:

  • Católicos: 45% Lula | 33% Flávio Bolsonaro
  • Evangélicos: 47% Flávio Bolsonaro | 27% Lula

O sociólogo Alexandre Landim, autor de O Deus das urnas (Telha, 2026), nota que a clivagem se consolidou desde 2010. “Na mesma faixa de renda — até dois salários mínimos —, o comportamento de voto muda radicalmente conforme a religião”, explica. Em 2010, a direita estreou a retórica religiosa forte com José Serra (PSDB) explorando o tema do aborto contra Dilma Rousseff (PT).

Estratégia nova, riscos conhecidos

Para Landim, a novidade em 2026 é a esquerda ativar o eleitorado católico com linguagem antes monopolizada pela direita. “A retórica é muito parecida, só que com o sinal trocado”, resume. O padre Luís Corrêa Lima (PUC-Rio) pondera que as falas dos bispos refletem a doutrina social da Igreja e documentos recentes dos papas Francisco e Leão 14 — “o discernimento cabe aos fiéis”.

Dom Francisco Lima alerta: “Cada detalhe importa, porque a diferença que um ganha do outro é muito pequena. E aí pode se querer buscar o detalhe dentro do religioso”. Landim concorda que o efeito prático nas urnas tende a ser baixo — a transferência de voto via liderança católica é menor que no meio evangélico —, mas admite que a mobilização de base pode funcionar. “Pensando em projeto de país, é prejudicial, porque gera animosidade religiosa”, conclui.

O que observar nas próximas semanas

Três frentes merecem atenção: (1) se a CNBB emitirá nota pública sobre as falas dos bispos, o que ampliaria ou conteria o ruído; (2) como o TSE tratará eventuais novas denúncias de uso eleitoral de símbolos religiosos; (3) se a diferença no primeiro turno for inferior a 2 pontos percentuais, o microtargeting religioso pode decidir a ida ao segundo turno. Para o empresariado e investidores, o sinal relevante não é o conteúdo teológico, mas a intensidade da polarização identitária — variável que costuma elevar a volatilidade de ativos de risco nas vésperas da votação.