O Tribunal Superior Eleitoral vai contar com a rede de satélites Starlink para garantir que votos de regiões isoladas cheguem à totalização em tempo real. A solução cobre 1.113 pontos de votação espalhados por 13 estados onde a internet convencional não chega. O que muda na prática para a segurança do pleito?
A contratação foi feita via Hughes Telecomunicações, vencedora do edital de março, e os equipamentos já estão sendo distribuídos aos Tribunais Regionais Eleitorais. Cada terminal conecta a urna ao sistema JE-Connect — o mesmo usado nos grandes centros urbanos.
Por que a Justiça Eleitoral recorreu a satélites de órbita baixa
Áreas remotas da Amazônia Legal, do Pantanal e do interior do Nordeste historicamente dependem de rádio ou de links instáveis para enviar boletins de urna. A latência alta e as falhas de sinal comprometiam a agilidade da apuração e, em casos extremos, exigiam transporte físico de mídias.
A constelação Starlink opera em órbita baixa (cerca de 550 km), o que reduz a latência para 20–40 milissegundos — comparável a uma banda larga terrestre. Isso permite que o JE-Connect funcione sem adaptações: a urna assina digitalmente o arquivo, criptografa e envia pela mesma rota lógica dos demais colégios.
Distribuição dos 1.113 terminais por estado
A alocação segue a densidade de seções isoladas mapeadas pelos TREs. Amazonas e Pará concentram 63% dos equipamentos:
- Amazonas: 350 terminais
- Pará: 350 terminais
- Mato Grosso: 117 terminais
- Acre: 91 terminais
- Maranhão: 60 terminais
- Roraima: 60 terminais
- Amapá: 53 terminais
- Mato Grosso do Sul: 9 terminais
- Goiás: 5 terminais
- Piauí: 5 terminais
- Bahia: 4 terminais
- Paraná: 4 terminais
- São Paulo: 3 terminais
- TSE (sede): 2 terminais (testes e redundância)
Os TREs definem quais seções recebem os kits — antena, roteador, fonte e cabos — e organizam a logística de instalação dias antes da votação. Técnicos da Hughes dão suporte remoto e presencial nas regiões de difícil acesso.
O fluxo de dados não muda: JE-Connect garante integridade
Mesmo com o meio de transporte diferente, o protocolo de segurança permanece idêntico. Ao fechar a votação, a urna gera o Registro Digital do Voto (RDV) e o Boletim de Urna (BU). Ambos são assinados com chaves privadas da Justiça Eleitoral e transmitidos por túnel TLS para o servidor central de totalização.
A diferença está na camada física: em vez de fibra, 4G ou rádio, o pacote IP viaja até o satélite, desce em uma estação-terrestre (gateway) conectada à rede da Justiça Eleitoral e segue pela rede privativa até o TSE. Não há exposição à internet pública em nenhum momento.
Testes de estresse e plano de contingência
Desde abril, a Secretaria de Tecnologia da Informação do TSE realiza simulações de carga com múltiplos terminais transmitindo simultaneamente. Cenários de chuva forte, obstrução de visão do céu e falha de energia foram reproduzidos em laboratório e em campo no Amazonas e no Pará.
Cada kit inclui bateria de backup com autonomia de 4 horas. Se o terminal falhar, o procedimento padrão prevê a impressão do BU e o envio físico da mídia de resultado — medida já prevista na legislação eleitoral para qualquer falha de transmissão.
O que observar nas próximas eleições
A estreia em larga escala da Starlink na votação brasileira serve de laboratório para dois movimentos maiores. Primeiro, a viabilidade técnica de usar órbita baixa como infraestrutura crítica de Estado — não só para eleições, mas para telemedicina, educação e defesa em fronteiras.
Segundo, o modelo de contratação: a Justiça Eleitoral não compra satélites, contrata capacidade de uma integradora (Hughes) que por sua vez aluga capacidade de um operador privado (SpaceX). Esse arranjo reduz risco de dependência tecnológica e permite trocar de provedor no próximo edital sem refazer toda a arquitetura.
Para o eleitor, a mudança é invisível: a urna continua a mesma, o boletim impresso continua a ser afixado na porta da seção e a contagem pública segue o rito habitual. O ganho está na certeza de que, do Oiapoque ao Chuí, o voto digital chega íntegro e auditável ao tribunal — independentemente de quantos quilômetros de floresta o separem da capital.
