A candidata Samara Martins (UP) protocolou no TSE um programa que propõe elevação imediata do salário mínimo para R$ 3.242 e a adoção da jornada 4×3 em todo o território nacional. As medidas fazem parte de um projeto declarado de transição ao socialismo que inclui suspensão do serviço da dívida pública e estatização de setores estratégicos.
O documento de 67 páginas, registrado sob o título “Unidade Popular pelo Socialismo”, não esconde o objetivo estrutural: substituir o modelo econômico vigente. Para o empresariado e investidores, o texto sinaliza rupturas profundas em contratos, regulação e propriedade privada.
O choque na folha de pagamento e na jornada
O eixo “Trabalho e Salário” prevê dois movimentos simultâneos: dobragem do piso salarial — acréscimo exato de R$ 1.621 sobre o valor de referência — e extinção da escala 6×1, substituída por quatro dias de trabalho e três de folga sem redução de remuneração.
Na prática, o custo unitário de mão de obra sobe em duas frentes: base salarial maior e menor disponibilidade de horas produtivas por semana. O programa também garante emprego a todo adulto apto ao trabalho, o que implicaria criação de vagas em escala massiva ou absorção pelo setor público.
Dívida pública: R$ 2 trilhões redirecionados
A proposta mais impactante para o mercado financeiro está no eixo econômico: suspensão imediata do pagamento da dívida e auditoria cidadã. A UP estima que cerca de R$ 2 trilhões anuais deixariam de ir para o serviço da dívida e migrariam para políticas sociais.
O documento não detalha o tratamento de credores domésticos e externos, nem o arcabouço jurídico para a moratória. A leitura de analistas é de que a medida, se implementada, geraria default soberano imediato, corte de acesso a mercados internacionais e pressão cambial severa.
Estatização ampla: bancos, energia, mineração e logística
O programa lista setores que passariam a controle estatal integral ou majoritário:
- Sistema financeiro: nacionalização dos bancos, fusão sob gestão estatal e dos trabalhadores, fim da autonomia do Banco Central.
- Energia e combustíveis: monopólio público na geração, mineração, produção e distribuição; reestatização de Eletrobras e Petrobras (100% estatal).
- Mineração e logística: retomada da Vale, ferrovias, portos, aeroportos, rodovias concedidas e saneamento.
- Telecomunicações e defesa: estatização de empresas do setor e da indústria de defesa.
- Transporte urbano: estatização de frotas, metrôs e trens privatizados; fortalecimento da CBTU.
O texto veda novas privatizações e leilões de petróleo, e prevê revisão ou revogação de concessões vigentes.
Tributação: isenção na base, taxação no topo
No desenho fiscal, a UP propõe isenção de Imposto de Renda para trabalhadores, desoneração da cesta básica e itens essenciais, e criação de tributação progressiva sobre grandes fortunas, lucros, dividendos e heranças de bilionários.
Há menção a alterações no ICMS/IVA com redução de alíquotas e isenções seletivas, mas sem detalhamento de alíquotas, faixas de renda ou estimativas de arrecadação líquida.
Judiciário eleito e segurança desmilitarizada
O programa propõe eleição direta para juízes e tribunais superiores, fim dos “penduricalhos” que elevam vencimentos acima do teto constitucional, e fortalecimento da Justiça do Trabalho.
Na segurança, prevê desmilitarização das polícias, reorganização de carreiras e mudança do modelo de atuação. O sistema penitenciário passaria por reforma ampla.
Comunicação e cultura sob controle público
O eixo de comunicações prevê estatização dos “monopólios de TV e rádio” e apoio a imprensa comunitária e alternativa. Na cultura, prioridade à produção popular e nacionalização de grandes gravadoras e produtoras cinematográficas.
O que observar daqui para frente
A chapa pura feminina — Samara Martins, 38 anos, cirurgiã-dentista do SUS no RN, e Raquel Brício, 34 anos, guarda portuária e dirigente sindical no PA — reflete a identidade do partido, criado em 2016 no campo da esquerda radical.
Para quem gere capital, risco ou operações no Brasil, o programa funciona como radar de cenário extremo: default soberano, quebra de contratos de concessão, fim da independência monetária e redesenho completo das relações de trabalho. A viabilidade eleitoral da candidatura permanece baixa nas pesquisas atuais, mas o documento registra no TSE o limite programático de uma fatia do eleitorado que pressiona por rupturas institucionais.
O próximo passo prático é monitorar o tempo de propaganda no horário eleitoral e a repercussão das propostas nos debates — especialmente a reação de candidatos de centro e direita às pautas de jornada 4×3 e douração do salário mínimo, que podem migrar para o discurso de campanha mesmo sem adesão ao projeto socialista.
