Economia

R$ 204 bi em infraestrutura ficam para 2027: o que o próximo presidente herda

Rodovia brasileira em obras com placa de concessão pública-privada simbolizando investimentos atrasados
Infraestrutura parada: R$ 204 bi em concessões ficam para 2027 como herança ao próximo governo

O próximo presidente da República assumirá uma carteira de concessões de infraestrutura superior a R$ 204 bilhões que o governo atual prometeu leiloar em 2026, mas não conseguiu viabilizar. Rodovias, ferrovias, portos e hidrovias foram empurradas para 2027 ou além, deixando um passivo de investimentos que será o primeiro grande teste da próxima gestão.

Dos 13 leilões rodoviários previstos para este ano, a expectativa oficial caiu para sete. No setor portuário, apenas três de 18 certames saíram do papel até setembro. A agenda ferroviária, que concentra o maior volume de recursos, ficou quase toda para o próximo mandato.

Onde o dinheiro está parado

O atraso não é uniforme. As ferrovias sozinhas respondem por R$ 154,9 bilhões em investimentos previstos que mudarão de governo. Apenas um dos oito leilões ferroviários programados — o Corredor Minas-Rio — tem data marcada para dezembro.

Nos portos, 15 projetos da carteira original permanecem pendentes. Entre eles, o Tecon Santos 10 (R$ 6,4 bilhões), o terminal de Itajaí (R$ 2,66 bilhões) e o canal de acesso a Santos (R$ 6,45 bilhões). As cinco concessões de hidrovias, incluindo o inédito leilão do rio Paraguai, também foram adiadas.

  • Rodovias: R$ 28,8 bi em projetos reprogramados (7 de 13 leilões previstos)
  • Ferrovias: R$ 154,9 bi (7 de 8 leilões adiados)
  • Portos: R$ 20,8 bi em 13 projetos com estimativa consolidada (15 no total)
  • Hidrovias: Valor não consolidado — 5 concessões adiadas

Por que a fila não andou

O ministro dos Transportes, George Santoro, aponta a complexidade inédita de modelar ferrovias greenfield (novos projetos) e a necessidade de aprovações no TCU como fatores centrais. “Concessão é muito mais complexo, eu não vou fazer na afobação”, declarou em entrevista.

Há também o acúmulo de processos na ANTT, suspensões de estudos e o calendário eleitoral. Para Maurício Portugal, especialista em concessões, “é natural conseguir fazer menos leilões no ano eleitoral. O governo fica muito mais sensível a esse tipo de pressão”.

No setor aquaviário, as dificuldades são técnicas e socioambientais. No Madeira, Tapajós e Tocantins, a modelagem teve de ser revista após embates com comunidades locais e indígenas. O canal de acesso a Santos, nova fronteira do programa, teve audiência pública apenas em 1º de setembro.

O que já foi entregue — e o que vem por aí

Apesar dos adiamentos, o mandato atual já realizou 50 leilões de rodovias, portos e aeroportos entre 2023 e 2025 — volume superior aos governos Bolsonaro e Fernando Henrique Cardoso. Três leilões rodoviários saíram em 2026: Rotas Gerais (MG), Rota dos Sertões (BA/PE) e a repactuação da Régis Bittencourt (SP/PR).

A pasta dos Transportes promete publicar ainda este ano os editais do Anel Ferroviário do Sudeste (EF-118) e da Malha Oeste (SP/MS), além de buscar solução para a Ferrogrão (EF-170). A ideia é que os certames ocorram no início de 2027.

Outra frente são as shortlines — trechos ferroviários curtos, de até 200 km, que podem ser outorgados por autorização (modelo mais simples que concessão). Sete trechos foram apresentados a investidores em setembro; ao menos dois devem ir a leilão até dezembro.

O que observar daqui para frente

O cronograma oficial dos próximos leilões será divulgado em novembro. Até lá, três variáveis ditam o ritmo: a conclusão de consultas públicas e audiências pendentes (caso de Itajaí e canal de Santos), a definição de modelo para projetos polêmicos como Tecon Santos 10, e a capacidade do TCU de processar o volume de editais que chegam de uma só vez.

Para o investidor ou empresário do setor, a sinalização clara é: 2027 começa com uma fila de projetos maduros, mas a execução dependerá de decisões políticas nas primeiras semanas do novo mandato. Quem estruturar capacidade de análise agora larga na frente quando os editais finalmente forem publicados.