A Alemanha acabou de ligar seu maior parque eólico offshore, o He Dreiht, capaz de abastecer 1,1 milhão de residências. O detalhe que muda tudo: ele não recebe um centavo de subsídio público.
Localizado a 90 km da ilha de Borkum, no Mar do Norte, o empreendimento reúne 64 turbinas somando 960 MW de capacidade. A operadora EnBW investiu € 2,4 bilhões (US$ 2,8 bi) para tirar o projeto do papel — e o fez sem a rede de proteção estatal que sustentou a expansão eólica europeia na última década.
O modelo que quebra a regra do jogo
Pela primeira vez em solo alemão, um parque offshore de grande porte entra em operação comercial dependendo exclusivamente de PPAs (Power Purchase Agreements). São contratos de longo prazo fechados diretamente com grandes consumidores, sem leilões de tarifa fixa nem garantias de preço mínimo do governo.
A lista de compradores já assinados revela o perfil de risco do negócio:
- Fraport — operadora do Aeroporto de Frankfurt
- Bosch — gigante do setor automotivo e industrial
- Outras empresas intensivas em energia que travam preço por 10 a 15 anos
Para o investidor, isso significa receita previsível sem exposição ao mercado spot. Para o setor, abre a porta de uma nova classe de ativo: eólico merchant de grande escala.
Contratos de longo prazo: a aposta das gigantes
O CEO da EnBW, Georg Stamatelopoulos, foi direto ao ponto na inauguração: a incerteza regulatória está travando novos projetos. “Vamos simplesmente ignorar esses projetos ou deixá-los se arrastar?”, perguntou, referindo-se ao pipeline de parques que aguardam decisão final de investimento (FID).
A resposta do mercado tem sido migrar para PPAs corporativos. Empresas como Amazon, Microsoft e agora Fraport e Bosch buscam descarbonizar operações e travar custos energéticos em um cenário de volatilidade do gás natural. O He Dreiht prova que há apetite — e liquidez — para esse modelo.
Mas o volume de contratos assinados ainda cobre apenas uma fatia da capacidade total. O restante da geração será vendida no mercado à vista, expondo o ativo a preços que podem cair perto de zero em horas de vento forte e demanda fraca.
Vento contrário vindo de Berlim e Washington
A cerimônia de quinta-feira (17) ocorreu sob nuvens políticas densas. A nova ministra da Energia, Katherina Reiche (CDU), propõe cortar subsídios à solar e eólica onshore e defende novas térmicas a gás para “estabilizar a rede”.
Do outro lado do Atlântico, a retórica anti-eólica de Donald Trump — que promete frear licenciamentos offshore nos EUA — respinga no sentimento de investidores globais. Fundos de pensão e utilities internacionais reduzem alocação no setor até que o ruído político arrefeça.
O ministro do Meio Ambiente, Carsten Schneider (SPD), contra-atacou: a meta de 30 GW offshore até 2030 (hoje são cerca de 9 GW) segue de pé. Mas metas sem leilões claros e cronograma de conexão à rede viram letra morta.
A meta de 30 GW corre risco?
O gargalo não é mais tecnológico nem de capital — é regulatório. A Alemanha precisa:
- Aprovar áreas de expansão no plano espacial marítimo
- Garantir capacidade de transmissão (cabos submarinos e conversores em terra)
- Definir regras de leilão que não assustem o merchant nem o modelo subsidiado
EnBW, RWE, Ørsted e TotalEnergies têm projetos maduros na gaveta. O que falta é sinal verde para transformar pipeline em aço no mar.
O que observar daqui para frente
Três indicadores dirão se o He Dreiht foi exceção ou novo padrão:
- Próximos leilões offshore: se houver oversubscrição a preço zero (sem subsídio), o mercado valida o modelo merchant.
- Volume de PPAs corporativos: crescimento acima de 20% ao ano sinaliza demanda real de longo prazo.
- Decisão sobre térmicas a gás: se o governo aprovar 10–15 GW de nova capacidade fóssil, o preço de energia no mercado spot pode ficar deprimido por anos — tornando PPAs ainda mais atraentes, mas projetos merchant puros, arriscados.
Para quem aloca capital em infraestrutura energética, a lição do He Dreiht é clara: o risco regulatório na Europa migrou do “subsídio ou não” para “qual híbrido de receita sobrevive ao próximo ciclo político”. O parque gira. A dúvida é se o próximo também vai girar — e sob que contrato.
