O chef João Diamante comanda um dos restaurantes do Rio Gastronomia, mas a notícia não está no cardápio: ele garantiu que seus alunos do projeto Diamantes na Cozinha ocupem mesas como clientes, não apenas a cozinha como mão de obra. A virada de chave acontece entre 17 de setembro e 4 de outubro, no Jockey Club Brasileiro.
Para jovens vindos de favelas e periferias, a chance de “consumir” um festival de elite costuma ser inexistente. Diamante resolveu mudar essa regra do jogo.
O dia em que o aluno virou cliente
A programação prevê que os estudantes atuem na operação do restaurante durante o evento. A novidade real, porém, é o ingresso livre para circular pelos demais espaços, assistir a shows e provar pratos de outros chefs.
“Normalmente, pessoas que vêm de onde eu venho não têm essa oportunidade”, resume o chef. A frase expõe uma barreira invisível: a de que a periferia serve para produzir, mas não para fruir.
Essa abordagem dupla — trabalho remunerado mais lazer qualificado — desenha um novo modelo de inclusão em grandes eventos gastronômicos.
De fogão quatro bocas para 3.500 vidas transformadas
A trajetória do projeto explica a ousadia. Em 2016, em Vila Isabel, a estrutura era mínima: um fogão de quatro bocas e dez alunos. Hoje, os números impressionam:
- Cerca de 3.500 pessoas beneficiadas em dez anos;
- Foco em qualificação profissional para jovens e adultos;
- Sede fixa desde 2022 no Hotel Othon Palace, em Copacabana.
A parceria com o hotel nasceu de uma conversa direta entre Diamante e o chef executivo Rubens Gonçalo. “Está ajudando um projeto social, que é o mais importante”, definiu Gonçalo ao ceder o espaço.
A origem: retribuir o que recebeu
Diamante não esconde a motivação pessoal. Antes da fama, ele passou por projetos de capoeira, jiu-jitsu, balé e dança. “Me fizeram ser quem eu sou hoje”, afirma. A promessa feita a si mesmo — criar uma ferramenta de transformação caso tivesse “capacidade intelectual bacana” — virou o Diamantes na Cozinha.
O resultado vai além de certificados. Ludmilla Dornelles, uma das formadas, define o impacto em termos existenciais: “Estava sentada no sofá, ansiosa, deprimida. Renovou minha vida. Hoje entro em lugares que nunca imaginei”.
O que observar daqui para frente
O Rio Gastronomia serve de termômetro. Se a experiência de aluno-cliente der certo, abre precedente para que outros festivais repliquem o modelo: cotas de ingressos para projetos sociais, não apenas vagas de estágio.
Para o empresário do setor, a lição é clara: inclusão real não se mede só pela contratação, mas pelo acesso ao consumo de cultura e lazer de alto nível. O próximo passo será ver se o mercado absorve essa lógica ou se a exceção continuará restrita à cozinha de João Diamante.
