Cultura

Da periferia para o VIP: como João Diamante quebra a barreira do Rio Gastronomia

Chef João Diamante com alunos do Diamantes na Cozinha no festival Rio Gastronomia no Jockey Club
João Diamante leva estudantes da periferia para jantar como clientes no Rio Gastronomia 2024.

O chef João Diamante comanda um dos restaurantes do Rio Gastronomia, mas a notícia não está no cardápio: ele garantiu que seus alunos do projeto Diamantes na Cozinha ocupem mesas como clientes, não apenas a cozinha como mão de obra. A virada de chave acontece entre 17 de setembro e 4 de outubro, no Jockey Club Brasileiro.

Para jovens vindos de favelas e periferias, a chance de “consumir” um festival de elite costuma ser inexistente. Diamante resolveu mudar essa regra do jogo.

O dia em que o aluno virou cliente

A programação prevê que os estudantes atuem na operação do restaurante durante o evento. A novidade real, porém, é o ingresso livre para circular pelos demais espaços, assistir a shows e provar pratos de outros chefs.

“Normalmente, pessoas que vêm de onde eu venho não têm essa oportunidade”, resume o chef. A frase expõe uma barreira invisível: a de que a periferia serve para produzir, mas não para fruir.

Essa abordagem dupla — trabalho remunerado mais lazer qualificado — desenha um novo modelo de inclusão em grandes eventos gastronômicos.

De fogão quatro bocas para 3.500 vidas transformadas

A trajetória do projeto explica a ousadia. Em 2016, em Vila Isabel, a estrutura era mínima: um fogão de quatro bocas e dez alunos. Hoje, os números impressionam:

  • Cerca de 3.500 pessoas beneficiadas em dez anos;
  • Foco em qualificação profissional para jovens e adultos;
  • Sede fixa desde 2022 no Hotel Othon Palace, em Copacabana.

A parceria com o hotel nasceu de uma conversa direta entre Diamante e o chef executivo Rubens Gonçalo. “Está ajudando um projeto social, que é o mais importante”, definiu Gonçalo ao ceder o espaço.

A origem: retribuir o que recebeu

Diamante não esconde a motivação pessoal. Antes da fama, ele passou por projetos de capoeira, jiu-jitsu, balé e dança. “Me fizeram ser quem eu sou hoje”, afirma. A promessa feita a si mesmo — criar uma ferramenta de transformação caso tivesse “capacidade intelectual bacana” — virou o Diamantes na Cozinha.

O resultado vai além de certificados. Ludmilla Dornelles, uma das formadas, define o impacto em termos existenciais: “Estava sentada no sofá, ansiosa, deprimida. Renovou minha vida. Hoje entro em lugares que nunca imaginei”.

O que observar daqui para frente

O Rio Gastronomia serve de termômetro. Se a experiência de aluno-cliente der certo, abre precedente para que outros festivais repliquem o modelo: cotas de ingressos para projetos sociais, não apenas vagas de estágio.

Para o empresário do setor, a lição é clara: inclusão real não se mede só pela contratação, mas pelo acesso ao consumo de cultura e lazer de alto nível. O próximo passo será ver se o mercado absorve essa lógica ou se a exceção continuará restrita à cozinha de João Diamante.