Educação

O segredo da Amazônia que França e Brasil descobriram juntos…

Pesquisadores brasileiros e franceses em imersão na Amazônia paraense com comunidades extrativistas e indígenas
Estudantes e pesquisadores do Brasil e França vivenciam sociobioeconomia na Amazônia durante escola imersiva internacional.

Uma imersão de 12 dias no coração do Pará acaba de redesenhar como universidades de dois continentes pensam desenvolvimento sustentável. Estudantes e pesquisadores do Brasil e da França trocaram salas de aula por comunidades extrativistas e aldeias indígenas. O resultado? Um modelo de bioeconomia que só existe quando a floresta e quem nela vive ditam as regras.

Não foi turismo acadêmico. Foi a estreia da Escola Imersiva Internacional em Sociobioeconomia Amazônica, nascida de um acordo bilateral selado durante a visita de Emmanuel Macron ao Brasil em 2024. O programa Amabio financia a iniciativa, que já tem segunda edição confirmada para 2027 — desta vez, na Guiana Francesa.

Por que 16 estudantes largaram tudo para viver na floresta

A turma inaugural reuniu mestrandos e doutorandos de quatro instituições: UPEC e Université de Guyane (França), UFPA e UFOPA (Brasil). Sete alunos da universidade parisiense e dois doutorandos completaram o grupo. Todos com uma missão: entender sociobioeconomia na prática, não na teoria.

A programação híbrida misturou palestras em Belém com visitas de campo nas cadeias do açaí, cacau e borracha. O diferencial? Dias inteiros nas comunidades dos rios Arapiuns, Maguari e Jamaraquá, na Flona do Tapajós, e no turismo comunitário do povo Munduruku em Ipaupixuna.

O que a academia ainda não aprendeu com quem mantém a floresta em pé

Para o professor Felipe Koch (UPEC), o momento mais forte foi a recepção nas comunidades. “A escola os tratou como parceiros de formação, detentores de saberes que a universidade precisa aprender a reconhecer”, resume. Não há hierarquia entre conhecimento científico e tradicional — há troca.

A doutoranda Vitória Tailamé, da Guiana Francesa, entrou no programa estudando sustentabilidade na construção civil. Saiu com outro vocabulário: “Sociobioeconomia traduz melhor os três pilares de um futuro desejável. Uma economia que respeita as pessoas, a natureza e seu tempo.”

Resultados que valem crédito acadêmico — e muito mais

O trabalho não acabou quando os ônibus partiram. Os grupos mistos seguem colaborando à distância, desenvolvendo soluções para problemas reais identificados em campo. A apresentação aos parceiros comunitários está marcada para janeiro de 2027.

  • Estudantes da UPEC: recebem créditos acadêmicos pela pertinência das soluções co-criadas
  • Estudantes da Guiana Francesa: produzem artigos e diário de bordo para levar o modelo adiante
  • Estudantes da UFPA e UFOPA: já atuam em extensão ou têm o tema em suas teses

O balanço final foi unânime: “alunos literalmente encantados”, nas palavras de Nadège Mezie (Expertise France). O encantamento virou política: a segunda edição já está em planejamento, alternando sedes entre Brasil e França.

O que observar daqui para frente

A diplomacia científica franco-brasileira acaba de ganhar um laboratório vivo. A aposta é que o modelo de alternância entre países fortaleça uma rede amazônica transfronteiriça — onde a sociobioeconomia deixa de ser conceito de paper para virar métrica de sobrevivência da floresta. Para investidores e gestores, o recado é claro: inovação na Amazônia só escala quando parte de quem conhece cada trilha, cada safra, cada tempo da mata. O próximo ciclo começa em 2027. As inscrições — e as apostas — já estão abertas.