Economia

Tarifaço de Trump zera vendas nos EUA: para onde correm os exportadores brasileiros?

Exportadores brasileiros buscam novos mercados após tarifaço de Trump zerar vendas nos EUA
Empresas brasileiras correm para diversificar destinos após tarifas americanas eliminarem receitas.

Empresas brasileiras viram o faturamento nos Estados Unidos evaporar em meses — em alguns casos, cair a zero. A resposta urgente agora é uma corrida por mercados alternativos que vai da América Latina à Ásia, passando pela Europa. Mas diversificar não basta: o verdadeiro gargalo está na competitividade da própria indústria.

O tarifaço imposto pelo governo Donald Trump atingiu em cheio setores que levaram décadas para consolidar presença no mercado americano. A Engemasa, fabricante de máquinas, viu sua fatia de 40% da receita vinda dos EUA virar “zero” em 2026. A Utilinox registrou queda de 60% nos embarques. O golpe veio em duas ondas: a alíquota de 50% sobre aço e alumínio (Seção 232) no início do ano e a imprevisibilidade que afastou compradores.

O mapa das alternativas: vizinhos e parceiros distantes

A busca por novos destinos já produz números. Segundo a ApexBrasil, 72% das 2,4 mil empresas atendidas pela agência e exportadoras para os EUA já atuam em pelo menos um mercado adicional. A China liderou o crescimento absoluto: exportações subiram 15% entre janeiro e agosto, totalizando US$ 77 bilhões. A União Europeia empatou no percentual (15%), mas em base menor: US$ 37 bilhões.

  • América Latina: proximidade geográfica e acordos vigentes facilitam o redirecionamento.
  • UE: acordo Mercosul–UE prevê tarifa zero para mais de 5 mil itens, 93% deles industriais.
  • Ásia e África: Indonésia, Singapura, Índia, Nigéria, Etiópia e África do Sul entram no radar da Apex.
  • Norte América fora dos EUA: Canadá e México aparecem como opções logísticas naturais.

Mas a diversificação esbarra na realidade de caixas curtos. Pequenas e médias empresas, com menor capacidade de investimento e presença internacional incipiente, são as que mais sofrem para abrir frentes novas. João Dmitruk, da ABIMAQ, resume: o impacto inicial é brutal justamente onde há menos fôlego financeiro.

Por que trocar os EUA não é simples

Substituir o mercado americano envolve mais que encontrar compradores. Produtos industriais muitas vezes integram cadeias produtivas específicas, exigem adaptações técnicas, certificações e relacionamento de confiança construído ao longo de anos. “Não é ‘ah, não tem problema, vende para a Coreia'”, alerta William Castro Alves, da Avenue.

O tamanho da economia americana, seu nível de renda e papel central nas cadeias globais tornam a reposição de volume quase impossível no curto prazo. A estratégia, portanto, não pode ser trocar uma dependência por outra — precisa ser ampliar a base de destinos.

O nó da competitividade que ninguém resolve com tarifa

Enquanto empresários correm atrás de mercados, um dado estrutural permanece: a indústria de transformação brasileira encolheu de 35,9% do PIB em 1985 para 13,7% em 2025. No ranking de complexidade econômica, o país despencou da 29ª para a 78ª posição entre 1995 e 2024.

Para Marcelo Vitali, da How2Go, diversificar destinos alivia o caixa, mas não resolve a raiz. “Mais que buscar mercado de diversificação, é fazer nossa indústria ficar competitiva”, diz. Inovação, desenvolvimento tecnológico e ganho de escala são pré-condições para disputar mercados maiores com produtos de maior valor agregado.

O que o governo colocou na mesa

O pacote de emergência soma recursos expressivos:

  • Brasil Soberano (3ª etapa): R$ 22,6 bilhões (R$ 13,5 bi Tesouro + R$ 9,1 bi BNDES) para exportadoras industriais e setores estratégicos.
  • ApexBrasil: R$ 210 milhões em estudos de mercado e ações para 35 setores.
  • Seguro de Crédito à Exportação (SCE): ampliado em 2026 com novas modalidades para MPMEs.
  • Proex: R$ 2,2 bi (Financiamento) + R$ 1,28 bi (Equalização) em 2026.
  • Drawback: prazos prorrogados por um ano para afetados pelas tarifas.

Leonardo Neves, da FGV, vê as medidas como “salva-vidas” de curto prazo, mas alerta: não substituem estratégia de longo prazo. “Não pode ser uma bolsa-empresa para sempre”, completa.

O que observar daqui para frente

A reunião entre autoridades brasileiras e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, marcou a retomada do diálogo — mas não trouxe definições. Enquanto a negociação política avança no ritmo diplomático, a sobrevivência das empresas depende da execução prática: acessar linhas de crédito, qualificar produtos para exigências técnicas de novos mercados e, principalmente, investir em inovação para elevar a complexidade do que o Brasil exporta. O tarifaço expôs uma fragilidade que existia antes dele. A resposta definitiva não está em Washington, nem em Bruxelas ou Pequim — está no chão de fábrica.