Economia

Netflix cresce 13,4% — o menor ritmo em 3 anos — e aposta no ao vivo para virar o jogo

Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, discursa na Bloomberg Screentime sobre desaceleração do crescimento
Ted Sarandos admite crescimento mais lento da Netflix em 3 anos na conferência Bloomberg Screentime

O co-CEO Ted Sarandos admitiu abertamente: a Netflix não está crescendo no ritmo desejado. No segundo trimestre, a receita subiu 13,4% — a expansão mais fraca desde 2021 — e as horas assistidas avançaram apenas 2% no primeiro semestre.

A confissão aconteceu durante a conferência Bloomberg Screentime, em Los Angeles, e expõe um dilema claro: como manter a liderança no streaming quando o mercado amadurece e a concorrência aperta?

O que os números revelam sobre o momento atual

O crescimento de dois dígitos ainda impressiona fora do setor de tecnologia, mas internamente soa como alerta. A base de assinantes segue aumentando, porém a velocidade caiu. A métrica de engajamento — horas assistidas — praticamente estagnou, sugerindo que os atuais usuários não estão consumindo mais conteúdo.

Para investidores, o recado é direto: a era de expansão vertiginosa ficou para trás. A empresa agora precisa extrair mais valor de cada assinante.

A aposta de 5% do orçamento que pode mudar a equação

Sarandos apontou a programação ao vivo como alavanca potencial. Hoje, esse formato consome 5% do orçamento anual de US$ 20 bilhões (cerca de R$ 104 bilhões) em conteúdo, mas responde por apenas 1% das horas assistidas.

Por que insistir então? A resposta do executivo revela a estratégia:

  • Geração de inscrições: eventos ao vivo funcionam como gatilho de aquisição
  • Retenção: criam compromisso de agenda — o espectador volta no horário marcado
  • Publicidade: inventário premium para o plano com anúncios, lançado em 2022

“Cumprem uma função muito diferente”, resumiu Sarandos. Não se trata de volume de horas, mas de valor estratégico por hora.

Filmes e séries seguem como prioridade absoluta

Apesar do entusiasmo com o ao vivo, o co-CEO foi taxativo: a Netflix continua no “negócio de conteúdo produzido profissionalmente”. Séries roteirizadas e filmes originais seguem como motor principal. O ao vivo complementa, não substitui.

Essa clareza evita dispersão de recursos — erro comum entre concorrentes que tentam ser tudo ao mesmo tempo.

O capítulo Warner Bros: lição ou oportunidade perdida?

Questionado sobre a tentativa frustrada de adquirir ativos da Warner Bros (incluindo CNN, HBO Max e o estúdio de cinema), Sarandos não demonstrou arrependimento. Afirmou que o plano era “sólido” e que a participação nas negociações fez sentido.

Um juiz federal aprovou nesta quarta-feira (30) o caminho para a aquisição desses ativos pela Paramount. A Netflix fica de fora, mas preserva caixa e foco.

O que observar nos próximos trimestres

Três variáveis vão ditar se a estratégia funciona: (1) a capacidade de converter eventos ao vivo em assinaturas líquidas, (2) a evolução da receita publicitária no plano com anúncios e (3) se o catálogo roteirizado consegue reverter a estagnação nas horas assistidas. O próximo balanço, em outubro, trará as primeiras pistas reais.