Economia

Brasil 3º mais complexo do mundo: por que os super-ricos estão tirando dinheiro do país

Gráfico mostra fuga de capital: Brasil 3º em complexidade regulatória, ativos no exterior crescem para US$ 620 bi
Brasil sobe no ranking de complexidade e super-ricos aceleram diversificação internacional de patrimônio.

O Brasil subiu para o terceiro lugar no ranking global de complexidade regulatória, e famílias de alto patrimônio já reagiram: os ativos no exterior saltaram de US$ 196,7 bilhões em 2007 para US$ 620 bilhões no ano passado. A pergunta que fica não é se a diversificação continua, mas até onde ela pode ir.

Desde janeiro, a volta da retenção de 10% sobre dividendos pagos a não residentes se somou a um cenário político instável. O resultado prático: ninguém está saindo do Brasil de forma abrupta, mas a exposição ao país está sendo calibrada com lupa.

O fim da dúvida: ter ou não ativos lá fora

“Não é mais ‘devo ter ativos no exterior?’, mas ‘quanto do meu patrimônio deve ficar exposto ao Brasil?'”, resume Alexandre Spadeto, diretor de Fundos para América Latina da TMF Group. A mudança de mentalidade é clara nos números do Banco Central e confirma o que o relatório Global de Family Offices 2026 do UBS já sinalizava: a diversificação virou multidimensional — ativos, moedas e regiões.

Entre as famílias pesquisadas, 31% mantêm proximidade com seus mercados atuais enquanto expandem para novas jurisdições. Os critérios de escolha se equilibram: 23% priorizam estabilidade política, outros 23% olham para estabilidade econômica.

Para onde o capital está migrando

  • América do Norte: 64% da alocação regional dos family offices latino-americanos
  • Europa Ocidental: 11%
  • América Latina: apenas 15%
  • Uruguai: destaque regional, subiu da 27ª para a 24ª posição no índice de complexidade

O movimento não busca necessariamente retorno maior. “Diversificação é reduzir risco de concentração”, explica Spadeto. “Se renda, negócios, imóveis, previdência e ativos financeiros estão na mesma economia e moeda, o risco está concentrado sem que ninguém perceba.”

A anatomia de uma estrutura internacional

Especialistas separam a arquitetura em três camadas que precisam conversar entre si: onde os ativos estão fisicamente, onde o veículo de investimento é domiciliado e onde os beneficiários residem fiscalmente. Uma família pode ter operações no Brasil, veículo nas Ilhas Cayman ou Luxemburgo, custódia nos EUA ou Suíça e membros vivendo em países diferentes.

O objetivo não é “escapar” de jurisdição alguma, mas construir estrutura juridicamente sólida, transparente e adequada. Jurisdições como EUA, Suíça, Portugal, Luxemburgo, Singapura e Ilhas Cayman aparecem recorrentemente nesse quebra-cabeça.

O custo oculto da diversificação

Operar em múltiplos países traz compliance, reporte e regras regulatórias distintos para cada jurisdição. O estudo alerta: isso eleva complexidade administrativa, risco de erros e dúvidas sobre a melhor abordagem de conformidade.

Por isso, family offices estão se profissionalizando. Modelos como multifamily offices, family offices virtuais e coinvestimento ganham espaço — permitem acessar expertise especializada sem internalizar todos os custos. A tendência deve se acelerar nos próximos anos.

Guerra por talentos muda a remuneração

Na disputa por profissionais com private equity e gestoras tradicionais, escritórios familiares adotam incentivos de longo prazo: ações virtuais (phantom stock), ações diferidas (RSUs), participação no capital e carried interest — parcela dos lucros dos investimentos. Comum nos EUA e Europa, o carried interest ainda é raro em Emirados Árabes e Ásia, mas a estruturação de RH sinaliza mudança.

IA entra na rotina, mas com cautela

Ferramentas de inteligência artificial já apoiam due diligence, KYC, AML, análise de risco e compliance. Em Jersey, projetos-piloto otimizam processos operacionais. Ainda assim, a adoção em family offices fica aquém de organizações maiores — a curva de aprendizado é íngreme e a confiança, gradual.

Carteiras mudam: crédito privado e ESG na mira

Há preferência crescente por crédito privado e investimentos diretos, em detrimento de fundos tradicionais. Busca-se retorno melhor e maior controle. Paralelamente, a nova geração empurra a agenda ESG: quer retorno financeiro e preferências pessoais coexistindo. Alguém interessado em tecnologia prefere investir em infraestrutura de IA a comprar ações do setor.

Os números mostram volatilidade: investimentos “mais ecológicos” caíram de 80% (2023) para 45% (2024), recuperaram a 54% (2025) e voltaram a 50% (2026). Foco social foi de 60% para 45%, subiu a 50% e chegou a 58%. Governança responsável oscilou entre 70% e 40%, fechando em 50%. Apesar das idas e vindas, ESG virou prática operacional padrão para muitos escritórios.

O que observar daqui para frente

A complexidade brasileira não deve arrefecer no curto prazo. Reforma tributária, cenário fiscal e instabilidade política mantêm a pressão por estruturas internacionais robustas. A profissionalização dos family offices — governança, tecnologia, gente — será o diferencial entre quem apenas protege patrimônio e quem consegue ampliá-lo entre gerações. Acompanhe a evolução das alocações em crédito privado, a adoção real de IA nos processos de compliance e a próxima leva de mudanças no regime de tributação de dividendos. São os vetores que vão ditar o ritmo dos grandes movimentos de capital nos próximos trimestres.