Os juros americanos atingiram o maior nível em 16 anos e, mesmo assim, as ações subiram na semana passada. O que sustenta esse comportamento aparentemente irracional? A resposta está no setor que mais gasta — e mais promete — no momento.
Entre 21 e 25 de setembro, o rendimento do Treasury de dez anos tocou 5,241%, patamar inédito desde 2007. Nesse mesmo intervalo, o Nasdaq avançou 2,1%, o S&P 500 ganhou 1,2% e o Dow Jones subiu 0,3%. A correlação negativa clássica entre juros e bolsa simplesmente não funcionou.
O momento em que a gravidade voltou a agir
A trégua durou pouco. Na segunda-feira (28), com o título de dez anos firme acima de 5,24%, os três índices fecharam no vermelho: S&P 500 caiu 0,77%, Nasdaq recuou 0,92% e Dow perdeu 0,67%. O movimento confirma a tese de Warren Buffett: juros são a gravidade dos ativos financeiros. Quando sobem o suficiente, puxam tudo para baixo.
Mas por que a bolsa resistiu por dias a um yield que, em tese, deveria derrubar as valorizações presentes dos lucros futuros?
O motor oculto: revisão de lucros turbinada por IA
Especialistas ouvidos pelo mercado apontam para um fator único: a inteligência artificial está forçando analistas a reescreverem projeções de resultados das big techs. Mesmo com fluxo de caixa pressionado por investimentos massivos, o lucro reportado tem surpreendido para cima.
- Nasdaq Composite: +2,1% na semana de 21 a 25/09
- S&P 500: +1,2% no mesmo período
- Treasury 10 anos: 5,241% no fechamento de 28/09
- Queda da segunda-feira: S&P -0,77% | Nasdaq -0,92% | Dow -0,67%
“A IA tem levado à revisão das projeções de resultados, o que sustenta as ações mesmo diante de um custo de capital maior”, resume João Arthur, diretor de investimentos da Suno Consultoria. O alerta: se os juros continuarem subindo e o lucro parar de surpreender, a correção se torna inevitável.
Otimismo calculado ou bolha em formação?
Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos, vê a IA como força real por trás do desempenho, mas adverte: o mercado pode estar precificando retornos que os investimentos atuais não vão entregar. Não há caracterização de bolha, mas o risco de expectativas infladas para os próximos anos é concreto.
Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial, acrescenta que a alta dos Treasuries já atrapalha as ações, embora com intensidade menor que em ciclos anteriores. A sinalização de que o Federal Reserve pode elevar juros em passos pequenos tem amortecido o impacto — por enquanto.
Dois mercados, duas narrativas
Para Bruna Allemann, head Internacional da Nomos, a bolsa e o mercado de títulos estão respondendo a forças distintas. As ações olham para o potencial de crescimento da IA; os Treasuries refletem inflação, política monetária e dívida pública. “A bolsa não ignora o juro. Ela está testando até onde aguenta”, define.
Outro vetor relevante: o volume recorde de emissões de dívida corporativa por empresas de tecnologia. Esses papéis competem diretamente com os Treasuries pelo capital dos investidores, criando uma dinâmica de oferta que pressiona yields para cima.
O contágio chega ao Brasil
Juros mais altos nos EUA aumentam a atratividade do dólar e podem pressionar o real, os juros futuros e a bolsa brasileira. O câmbio costuma ser a primeira via de transmissão. O diferencial de juros entre Brasil e EUA ainda oferece alguma proteção à moeda nacional, mas uma desaceleração das big techs americanas reduziria, em termos relativos, a pressão sobre ativos locais.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o próximo capítulo: a velocidade da alta dos yields longos, a capacidade das big techs de seguir entregando surpresas positivas nos balanços e a postura do Fed nas próximas reuniões. Se o lucro estagnar enquanto o custo de capital sobe, a gravidade de Buffett cobrará a conta — em Nova York e, por efeito cascata, em São Paulo.
