Economia

O segredo dos bilionários: “sangue na boca”, ilusão da liberdade e o erro que mata startups

David Vélez, Guilherme Benchimol, André Street e Cristhiano Faé no palco da conferência B55 para 4 mil executivos em São Paulo
Fundadores do B55 compartilham lições sobre longevidade empresarial na estreia da conferência em São Paulo

Quatro mil executivos lotaram São Paulo nesta terça-feira para a estreia da conferência do B55, instituto criado por David Vélez, Guilherme Benchimol, André Street e Cristhiano Faé. O que começou como debate sobre gestão virou um raio-X brutal do que separa empresas longevas das que morrem cedo.

A resposta não está em planilhas. Está em três palavras que ecoaram no auditório: pessoas, cultura e foco.

O que “sangue na boca” ensina sobre sobreviver 100 anos

David Feffer, chairman da centenária Suzano, resumiu a longevidade corporativa em uma frase: “Precisa de gente com sangue na boca”. A definição não é poética — é operacional. Paixão, desejo, sonho, coragem, formação de sucessores e busca por soluções.

Feffer confessou estar “mega animado e um pouco assustado” com a velocidade da IA. A comparação histórica que fez dá a medida do momento: comparou a revolução atual à chegada dos automóveis. O medo existe, mas a aposta é de que os benefícios superam os riscos.

A armadilha da liberdade que todo empreendedor cai

Guilherme Benchimol, fundador da XP, quebrou o mito fundador do empreendedorismo. “Achava que teria liberdade plena, faria as coisas na hora que quisesse, não teria mais chefe.”

A realidade o atropelou:

  • Trabalha de segunda a segunda
  • Os “chefes” viram clientes, sócios, a causa assumida
  • A vida pessoal se funde à empresa

“É muito difícil empreender, mas também muito prazeroso”, completou. O aviso vale ouro para quem está começando: a liberdade não é ausência de amarras — é escolha das próprias correntes.

Por que o Brasil exporta gente, não só commodities

André Street viveu os dois lados. Fundou a Stone no Brasil e a Teya em Londres. A conclusão é direta: “O Brasil é um país de gente muito resiliente, muito empreendedora, muito raçuda. Na Europa, isso é um pouco mais difícil.”

Resultado prático: a operação europeia recebe brasileiros de todos os cantos. O talento nacional virou ativo de exportação — mais valioso que minério ou soja.

A reforma que pode virar o jogo para marcas brasileiras

Ricardo Ermírio de Moraes, fundador da Natural One e herdeiro do Grupo Votorantim (dono da Citrosuco, maior produtora de suco de laranja do mundo), trouxe números concretos. A reforma tributária vai tratar suco integral como alimento, cortando a alíquota em 60%.

A empresa já chega a 10 países. A meta declarada: acabar com a “síndrome de vira-lata” de só exportar commodity. “É como um jogo de War”, definiu Moraes. A estratégia é ocupar territórios com marca própria.

Os três pilares que separam execução de distração

Cristhiano Faé, CEO do B55, fechou o ciclo com um alerta cirúrgico. Segundo ele, o empreendedor “por natureza está sempre se distraindo, olhando para o lado, para uma oportunidade nova”. A receita para não se perder:

  1. Pessoas: contratação, demissão, engajamento, remuneração levadas a sério
  2. Cultura forte: modelo Nubank, Stone, XP — identidade inegociável
  3. Foco: a disciplina de dizer não ao que não move a agulha

Não há fórmula mágica. Há prioridades claras executadas com obsessão.

O que observar daqui para frente

A conferência tem segundo round nesta quarta. O que fica da primeira noite é um recado prático para quem comanda negócios: a tecnologia assusta, a tributação muda, o mercado externo chama — mas a variável controlável continua sendo a mesma de sempre. Gente com fome. Cultura que não negocia. Foco que não desvia.

Empresas que internalizarem esse tripé não precisam torcer pelo cenário macro. Elas criam o próprio.