O economista Gil do Vigor, ex-BBB e recém-doutor, foi alvo de deboche nas redes sociais apenas por comemorar a aprovação de dois artigos em congresso da Sociedade Brasileira de Econometria. A reação não é um caso isolado: ela escancara a desconexão perigosa entre a academia e o restante do país.
Para quem lidera negócios ou gere investimentos, o episódio funciona como um alerta. A forma como tratamos nossas conquistas intelectuais dita a capacidade de formar a mão de obra que o mercado vai precisar daqui a cinco anos.
O rigor por trás da “comemoração de influenciador”
O que pareceu vaidade de rede social é, na verdade, um rito de passagem técnico. A SBE (Sociedade Brasileira de Econometria) submete cada trabalho a uma avaliação duplo-cega: dois pareceristas de instituições diferentes analisam o conteúdo sem saber quem o escreveu.
Gil vem de Jaboatão dos Guararapes (PE), percorreu graduação, mestrado e doutorado no exterior. Ele domina a linguagem acadêmica e, diferentemente da maioria dos pesquisadores, consegue traduzi-la para milhões de pessoas. Esse híbrido — cientista rigoroso e comunicador de massa — é um ativo raro.
O abismo que o Pisa 2025 revela para o seu negócio
Enquanto debatemos se doutor deve ou não comemorar aceite em congresso, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025 entrega o diagnóstico real do funil de talentos brasileiro. Os números explicam por que encontrar profissionais qualificados virou dor de cabeça estratégica:
- Matemática: apenas 28% dos alunos de 15 anos atingem o nível 2 (básico), contra 65% na média da OCDE.
- Alto desempenho: menos de 1% chegam aos níveis 5 ou 6; na OCDE são 8%, em Singapura, 37%.
- Leitura: 1% no topo da escala; média OCDE beira 8%.
- Evolução real (2006–2025): ganho só em ciências (390 para 409 pontos); matemática e leitura estagnaram.
Esses adolescentes de hoje são a força de trabalho de 2030. O déficit de base não se resolve com treinamento corporativo de seis meses.
A janela demográfica que não podemos desperdiçar
A taxa de fecundidade caiu vertiginosamente. Menos crianças nascendo significa uma chance única: aumentar o investimento por aluno nos anos iniciais sem estourar o orçamento total.
Mas o dinheiro sozinho não resolve. A literatura aponta que a qualidade do gasto — formação continuada de professores, gestão escolar baseada em dados, currículo alinhado ao século XXI — pesa mais que o volume de recursos. O Brasil gasta mal há décadas.
Por que a figura do “comunicador-cientista” move a agulha
Academia e mercado falam dialetos diferentes. Pesquisadores publicam em inglês para pares; empresários precisam de soluções em português para ontem. Gil do Vigor ocupa essa ponte.
Quando um jovem de periferia vê alguém com a trajetória dele defendendo a pós-graduação com a mesma naturalidade com que ensina a fazer prova do Enem, a percepção de “isso é para mim” muda. Em um país onde professor é desvalorizado e a escola pública sucateada, referências positivas não são detalhe — são infraestrutura.
O que observar daqui para frente
Dois vetores vão ditar a disponibilidade de talentos nos próximos ciclos de investimento: a execução do novo Fundeb (com foco na equidade e qualidade) e a capacidade das universidades de encurtar o tempo entre pesquisa e aplicação produtiva. Empresários que monitorarem indicadores de aprendizagem no ensino básico — não só taxas de matrícula — terão vantagem na antecipação de gargalos de mão de obra. O deboche de hoje pode virar a escassez de amanhã.
