O Japão autorizou a entrada de carne bovina argentina pela primeira vez em duas décadas, conforme anúncio do ministro da Economia, Luis Caputo, na quarta-feira (30). O acordo abre as portas de um mercado que importa mais de US$ 3 bilhões por ano em proteína de alta qualidade. A conquista, no entanto, expõe um contraste direto: o Brasil, maior exportador global, continua aguardando o sinal verde de Tóquio.
O que muda na prática para a Argentina
A habilitação vale para carne produzida em zonas argentinas reconhecidas como livres de febre aftosa com vacinação. As negociações técnicas se arrastavam desde 2024 e culminaram na definição dos protocolos sanitários exigidos pelos japoneses. Para Buenos Aires, o aval funciona como um atestado de qualidade do sistema de defesa agropecuária local.
Caputo classificou o acordo como “histórico” em publicação na rede social X. A expectativa do governo argentino é que a nova rota de escoamento injete competitividade no setor frigorífico, hoje pressionado por custos internos e câmbio.
O prêmio de US$ 3 bilhões que o Brasil ainda não acessa
O mercado japonês é um dos mais cobiçados do mundo: paga prêmios elevados por cortes premium e exige rastreabilidade rigorosa. Enquanto a Argentina comemora a entrada, o Brasil negocia o mesmo acesso há mais de 20 anos. A diferença central está no status sanitário reconhecido pelo Japão.
- Argentina: Habilitada com status de “livre de aftosa com vacinação”.
- Brasil: Conquistou em maio de 2025 o reconhecimento de “livre de aftosa sem vacinação” pela OMSA.
Por que o status “sem vacinação” não garantiu entrada imediata
Em tese, a condição de “livre sem vacinação” é superior à da Argentina. Na prática, however, o Japão trata a análise de risco como processo soberano e independente. Após o reconhecimento internacional, uma equipe técnica japonesa visitou o Brasil em junho de 2025 para auditar in loco os controles de fronteira, vigilância e rastreabilidade.
Até meados de setembro, a conclusão dessa análise de risco ainda pendia. Ou seja: o atestado sanitário máximo não se traduz em autorização automática de embarque. O protocolo japonês exige que a avaliação de risco seja finalizada e publicada antes de qualquer certificado sanitário ser emitido.
O que observar daqui para frente
Para o investidor e o empresário do setor, dois movimentos merecem atenção nas próximas semanas. Primeiro, o volume e a velocidade dos primeiros embarques argentinos — eles testarão a logística e a aceitação do consumidor japonês. Segundo, a publicação do relatório final de análise de risco do Brasil pelo Ministério da Agricultura, Florestas e Pescas do Japão (MAFF).
Se o Brasil receber o aval ainda em 2025, entrará no mercado com o status sanitário mais alto, o que pode garantir prêmios maiores que os argentinos. Caso a demora persista, a Argentina consolida presença e relacionamento comercial com importadores japoneses, vantagem difícil de reverter no curto prazo.
