Ciência

O voto útil já decidiu 2026? O que as pesquisas revelam sobre a corrida presidencial

Gráfico de pesquisa eleitoral 2026 mostra polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro com queda da terceira via
Pesquisas Quaest revelam migração do voto útil para Lula e Flávio Bolsonaro em estados-chave

O fenômeno do “voto útil” deixou de ser teoria acadêmica para ditar o ritmo da disputa presidencial de 2026. Dados das três últimas rodadas da Quaest mostram que a terceira via encolheu em cinco estados-chave, e esse eleitorado migrou direto para quem já liderava em cada território.

A consequência imediata: a polarização entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) se aprofunda antes mesmo do primeiro turno. Mas a velocidade desse movimento esconde nuances que podem mudar a leitura do cenário nos próximos meses.

O cálculo por trás da deserção estratégica

Em 1997, Gary Cox formulou a regra: o eleitor abandona seu candidato preferido quando percebe que ele não tem chance e que insistir nele pode eleger justamente quem ele mais rejeita. Três condições ativam esse gatilho: o eleitor se importa com o resultado, sabe quem é viável e a informação circula amplamente — papel hoje exercido pelas pesquisas.

Quando esses ingredientes se combinam, a disputa converge para dois nomes. Cox chamou de “deserção estratégica”. Os números de setembro mostram o mecanismo em operação real.

O mapa estado a estado: para onde o voto migrou

A Quaest mediu São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco e Distrito Federal em 8, 23 e 29 de setembro. O bloco formado por Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) perdeu terreno em todos eles. Veja a síntese:

  • Pernambuco: terceira via caiu de 10% para 6%; Lula subiu de 51% para 58%; vantagem petista saltou de 30 para 38 pontos.
  • Rio de Janeiro: terceira via de 12% para 8%; Flávio Bolsonaro foi de 34% para 38%; liderança bolsonarista abriu de 2 para 7 pontos.
  • São Paulo: terceira via de 15% para 13%; Flávio subiu 5 pontos (31% para 36%); Lula estagnou em 30%; dianteira do PL foi de 1 para 6 pontos.
  • Distrito Federal: caso mais nítido — terceira via desabou de 24% para 16%; Caiado caiu de 13% para 8%; Flávio avançou de 31% para 38%; vantagem de 6 pontos.
  • Minas Gerais: a exceção. Terceira via recuou de 19% para 14%, mas Lula e Flávio cresceram 4 pontos cada; vantagem de Lula (4 pontos) apenas se consolidou.

Por que Minas Gerais foge à regra

Em Minas, não há clareza sobre quem lidera. Sem consenso nas pesquisas sobre o favorito, o voto útil não sabe para onde fluir — e os dois polos crescem juntos. O estado segue como o termômetro mais fiel do equilíbrio nacional.

Essa indefinição mina a “deserção estratégica”: o eleitor mineiro não tem o sinal claro de qual voto evita o pior cenário. Enquanto isso não muda, a terceira via resiste mais que nos outros estados.

O que une os cinco estados não é o lado — é a lógica

No Nordeste, o voto útil amplia Lula. No Sudeste e no Centro-Oeste, amplia Flávio Bolsonaro. A direção muda, mas o motor é o mesmo: o eleitor percebe a hierarquia, calcula o custo de insistir no preferido e migra para o viável mais próximo de sua rejeição menor.

A terceira via, que em setembro chegou a somar quase um quarto dos votos no DF e um quinto em Minas, está sendo drenada pelas duas pontas da polarização. Exatamente como Cox previu há quase trinta anos.

O que observar daqui para frente

Cada nova rodada de pesquisa que confirmar a distância entre os dois líderes e os demais funciona como sinal reforçado para o eleitor: insistir no preferido tem custo. A tendência histórica é de aceleração dessa migração nas semanas finais.

Para investidores e analistas de risco político, três variáveis merecem monitoramento contínuo: a estabilidade da vantagem em Minas Gerais, a velocidade de erosão de Caiado no DF e a eventual estagnação de Lula em São Paulo. Qualquer inflexão nesses pontos pode indicar que o primeiro turno já está — ou não — desenhado.