Dos cinco maiores parceiros comerciais da União Europeia, apenas o Brasil vendeu mais produtos agroalimentares ao bloco nos sete primeiros meses do ano. A fatia brasileira chegou a 10% do mercado, totalizando € 11,2 bilhões — mas o resultado poderia ser bem maior se o preço do café não tivesse desabado.
O número que coloca o Brasil na frente
Enquanto Estados Unidos e China viram o fluxo comercial com os europeus encolher, o Brasil nadou contra a corrente. As importações totais da UE no setor somaram € 108,6 bilhões no período. A participação brasileira só não cresceu mais porque a conta do café, cacau, chá e especiarias — principal grupo de gastos europeus — caiu 19%, para € 20,5 bilhões.
Foi o volume recorde de soja que segurou a alta. O Brasil ganhou espaço justamente onde a demanda europeia segue firme: grãos, frutas e castanhas.
Café freia avanço, soja empurra a balança
O tombo nos preços do café mascara a força do agronegócio brasileiro na Europa. Veja onde o dinheiro europeu está concentrado hoje:
- Café, cacau, chá e especiarias: € 20,5 bi (‑19% YoY)
- Frutas e castanhas: alta demanda, entrada brasileira crescente
- Soja: volume maior garantiu ganho de market share
A dependência europeia é estrutural. Eles não produzem café nem cacau em escala e precisam de soja para ração animal. O Brasil entrega os três.
O golpe na carne bovina e a guerra tarifária de Trump
Nem tudo são flores. As compras europeias de carne bovina somaram € 2,1 bilhões até julho, mas o bloco fechou as portas para o produto brasileiro no início deste mês. A medida corta uma linha de receita justamente quando o Brasil ampliava volumes.
Paralelamente, a política tarifária de Donald Trump reshuffleou o tabuleiro. As importações da UE vindas dos EUA recuaram 4% (€ 7,69 bi) e as exportações europeias para lá caíram 9% (€ 16 bi). Com a China, as vendas europeias caíram 3% e as compras estagnaram.
O vácuo deixado pelos rivais abriu espaço para o Brasil — mas a janela pode fechar se houver retaliação ao embargo da carne.
O que os europeus compram (e vendem) de verdade
A balança agroalimentar da UE revela um jogo de valor agregado. Os europeus gastam bilhões em matéria-prima e faturam processando:
- Principais importações: café, cacau, frutas, soja, cereais
- Principais exportações: cereais processados, lácteos, vinho, café torrado, carne suína
No café e cacau, a conta fecha com lucro: gastaram € 20,5 bi na compra e reexportaram € 6,6 bi em produtos industrializados. No tabaco, a margem é ainda maior — € 3,1 bi em importações viram € 4,8 bi em exportações.
Safra recorde no Brasil: números que impressionam
Os dados da Anec (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais) confirmam o momento histórico no campo. Em setembro, a soja bateu 7,24 milhões de toneladas embarcadas. Com exceção de fevereiro, todos os meses de 2025 superaram o mesmo período de 2024.
O acumulado já beira os 102 milhões de toneladas — colado nos 109 milhões de todo o ano passado. O milho anda mais devagar (19,5 milhões até setembro), mas os subprodutos compensam:
- Farelo de soja: 19,3 milhões de toneladas (vs 23 milhões em todo 2024)
- DDGS (etanol de milho): 840 mil toneladas — já supera o ano inteiro de 2024 (796 mil)
O que observar daqui para frente
Três variáveis definem se o Brasil amplia ou perde a vantagem nos próximos trimestres: a reversão (ou não) do embargo à carne bovina, a trajetória dos preços do café nas bolsas internacionais e o desdobramento da guerra comercial entre EUA, UE e China. Se o bloco europeu precisar diversificar fornecedores longe de Washington e Pequim, o Brasil tem estoque, logística e escala para ocupar o espaço — desde que as portas não se fechem por decisões políticas.
