Uma medida provisória assinada na sexta-feira (25) proibiu as apostas online no Brasil e deixou o BTG Pactual com a maior fatura do setor. O banco de André Esteves era parceiro de 14 das maiores operadoras autorizadas, que juntas moviam 70% de um mercado de R$ 57,1 bilhões entre janeiro de 2025 e junho de 2026. Enquanto concorrentes como Itaú, Santander e Banco do Brasil ficaram de fora por risco de compliance e reputação, o BTG construiu a infraestrutura bancária que sustentava as gigantes do setor.
Agora, com a suspensão imediata da atividade, a instituição precisa desmontar uma operação que incluiu empréstimos de grande porte, contas-bolsão para milhões de apostadores e até fianças imobiliárias. O Congresso tem 120 dias para validar ou derrubar a MP. Até lá, o banco segue exposto a contratos que somam centenas de milhões de euros.
Por que os grandes bancos disseram não
Desde o início da regulamentação, em 2024, a maioria das instituições financeiras de grande porte recusou atender casas de apostas. Os motivos eram claros: riscos de lavagem de dinheiro, dificuldade de identificar os beneficiários finais das empresas, incerteza regulatória e o desgaste de imagem ligado a ludopatia e endividamento familiar.
O Santander, por exemplo, encerrou contas de executivos do setor. Em junho de 2026, o ex-CEO da GaleraBet processou o banco alegando cancelamento unilateral; a instituição alegou “desinteresse comercial”. O Itaú saiu após uma operação policial em 2024. Banco do Brasil e Caixa informaram que mudaram suas políticas internas e deixaram de aceitar novos clientes do ramo. O Bradesco diz aceitar, mas com regras próprias não divulgadas.
A aposta solitária do BTG
O movimento do BTG começou ainda em 2024, quando o Ministério da Fazenda publicou as regras para depósitos, saques e contas de garantia. O banco desenvolveu sozinho uma solução de conta-bolsão — estrutura que abre uma subconta individual para cada apostador, exigência legal que afastou a concorrência.
Com a tecnologia pronta, o BTG fechou contratos com multinacionais como Betano, Bet365, SuperBet, SportingBet e Blaze, além de marcas ligadas à Globo (BetMGM, Rei do Pitaco) e da Betnacional, braço brasileiro da Flutter Entertainment, listada em Nova York. O Banco Genial e o Topázio ficaram com operadoras de menor porte.
Os números por trás da parceria
- € 147 milhões (R$ 874 mi): empréstimo à Betano em abril de 2026, via filial do BTG em Luxemburgo
- R$ 1,1 bilhão: valor da operação brasileira da Superbet segundo laudo da Apsis, usado como lastro para garantia de empréstimo
- R$ 1,981 bilhão: financiamento da compra de 56% da Betnacional pela Flutter
- 5 contas-correntes: concentram os principais ativos da Blaze no BTG
- R$ 310,7 milhões: lucro reportado pela SportingBet em 2025, cliente do banco
Documentos em juntas comerciais mostram ainda que o BTG atuou como fiador em aluguéis da Superbet na Barra da Tijuca (RJ), após três grandes bets relatarem contratos de locação rompidos em 2024 por conta da atividade.
O que muda agora para o banco
A MP tornou ilegal a atividade que, até a véspera, era regulada. O BTG informou que está adotando medidas para cumprir a nova legislação, mas não detalha como fará o desembolso de créditos já concedidos nem a devolução de recursos de apostadores mantidos nas contas-bolsão. A exposição cambial — parte dos empréstimos foi feita em euros via Luxemburgo — adiciona complexidade.
Do lado das bets, a Flutter declarou ao Ministério da Fazenda que usa o BTG para movimentar dinheiro de jogadores durante as partidas. A Bet365, segunda maior marca do país, aparece em documentos da Fazenda indicando conta no banco, embora as transações não tenham sido identificadas pela reportagem. O Ouribank, que fez operações de câmbio para a Bet365, afirma não oferecer contas transacionais para o setor.
O que observar nas próximas semanas
A validação da MP no Congresso é o primeiro marco. Se cair, as bets voltam a operar e o BTG retoma a receita — mas sob sombra de investigações futuras. Se confirmada, o banco precisará renegociar ou provisionar perdas em contratos de longo prazo, além de lidar com o saque em massa de saldos de apostadores. Investidores devem monitorar os balanços trimestrais do BTG e eventuais comunicados ao Banco Central sobre exposição a crédito de liquidação duvidosa. O desfecho definirá se a aposta solitária valeu o risco.
