O governo federal propôs ao Congresso um reforço orçamentário histórico para o Banco Central, a CVM e o Coaf em 2027, reação direta às falhas de fiscalização expostas pelo caso Banco Master. A verba extra chega a casa dos bilhões, mas especialistas alertam: dinheiro em caixa não garante supervisão eficaz se as amarras fiscais e burocráticas não forem rompidas.
O salto nos números: onde o dinheiro vai chegar
A peça orçamentária enviada aos parlamentares revela percentuais de crescimento que chamam a atenção até de veteranos do setor. A ação de supervisão do sistema financeiro no BC salta 31%, indo para R$ 359,1 milhões. Na CVM, a rubrica específica de supervisão de mercado explode 515%, atingindo R$ 121,8 milhões.
O destaque absoluto, porém, é o Coaf. Os recursos totais do órgão de inteligência financeira saltam de R$ 20,5 milhões para R$ 150 milhões — um crescimento de 629,14%. Só para prevenção e combate à lavagem de dinheiro, a verba pula de R$ 16,2 milhões para R$ 105 milhões.
- BC (Supervisão): +31% (R$ 273,8 mi → R$ 359,1 mi)
- CVM (Supervisão): +515% (R$ 19,8 mi → R$ 121,8 mi)
- Coaf (Total): +629% (R$ 20,5 mi → R$ 150 mi)
- Coaf (Antilavagem): +548% (R$ 16,2 mi → R$ 105 mi)
Tecnologia e gente: o plano de voo da CVM
A autarquia presidida por João Pedro Nascimento já traçou o destino dos recursos. A prioridade é modernizar a infraestrutura tecnológica defasada: troca de parque computacional, aquisição de equipamentos aptos a rodar inteligência artificial, expansão de nuvem pública e construção de data center próprio.
O objetivo declarado é cruzar bases de dados massivas para detectar padrões atípicos antes que virem fraudes consolidadas. “É preciso uma forma de organizar todos esses dados”, resume José Alexandre Cavalcanti Vasco, superintendente de Desenvolvimento da CVM. A autarquia também nomeou 14 inspetores e aguarda 30 novos analistas técnicos para reforçar a presença física, sobretudo em São Paulo.
A armadilha do contingenciamento e a briga pela autonomia do BC
Mas há um “porém” técnico que preocupa servidores e analistas. Evelin Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Auditores do BC, lembra que dotações maiores podem ser congeladas durante a execução orçamentária. “Mesmo uma dotação mais alta pode ser reduzida ao longo do exercício por contingenciamentos, mantendo a capacidade de investimento sujeita à incerteza anual”, afirma.
Por isso, a autoridade monetária pressiona pela PEC da Autonomia Financeira. A proposta permite que o BC use receitas próprias (como resultado cambial e seigniorage) para custear sua estrutura, saindo da dependência do Orçamento Fiscal da União e das tesouradas anuais do Executivo. Sem isso, a previsibilidade para projetos de longo prazo — como segurança cibernética e evolução do Pix — segue comprometida.
O nó jurídico da CVM e a visão dos especialistas
No caso da CVM, parte do reforço vem de uma decisão do ministro Flávio Dino (STF), que determinou que 70% da taxa de fiscalização vá direto para a autarquia, não para o Tesouro. O Ministério do Planejamento, contudo, aponta contradição com o arcabouço fiscal e o tema segue em debate interno — o que trava a disponibilidade real desses recursos.
Para o ex-procurador Rodrigo de Grandis, o caso Master provou que a supervisão reativa “não cumpre seu papel institucional”. Ele defende modelo preventivo, com alertas automáticos para operações atípicas e comunicação ágil com MP e Polícia Federal. O ex-diretor da CVM Gustavo Gonzalez vai além: diz que a tecnologia deve mirar ativos de baixa liquidez no mercado de fundos e, crucialmente, a autarquia precisa auditar se os compliance internos das instituições funcionam na prática, não só no papel.
O que observar nos próximos meses
A aprovação do Orçamento 2027 no Congresso é apenas o primeiro round. Acompanhe a tramitação da PEC da Autonomia Financeira do BC: se avançar, muda a estrutura de incentivos da supervisão permanentemente. No curto prazo, monitore a execução orçamentária do Coaf e da CVM no primeiro semestre — a velocidade de contratações e compras de tecnologia será o termômetro real da capacidade de resposta do Estado. Se o dinheiro ficar parado no caixa por burocracia, o próximo Master não será evitado por falta de verba, mas por falta de gestão.
