Economia

Fundador de fintech imobiliária acusa Barclays de congelar £145 mi e causar colapso

Paresh Raja, fundador da MFS, em entrevista sobre congelamento de £145 milhões pelo Barclays
Fundador da MFS acusa Barclays de reter £145 mi de investidores e causar colapso da fintech

Paresh Raja, fundador da Market Financial Solutions (MFS), afirma que o bloqueio repentino de contas pelo Barclays precipitou o colapso da credora imobiliária britânica. São 145 milhões de libras esterlinas retidas — quantia que, segundo ele, pertenceria a investidores e mutuários, não à empresa.

A versão do empresário contrasta com o silêncio do banco. Enquanto a disputa se arrasta, centenas de operações de bridging loan e financiamento de desenvolvimento travam no Reino Unido. O desfecho pode redefinir regras de relacionamento entre bancos e non-bank lenders.

O que Raja alega nos bastidores

Em declarações obtidas pela Bloomberg, o fundador nega qualquer desvio de recursos. Sustenta que a MFS operava como intermediária: captava de investidores institucionais e emprestava a incorporadores e compradores de imóveis comerciais. O dinheiro parado nas contas congeladas seria, majoritariamente, de terceiros.

Raja aponta que o Barclays teria agido sem aviso prévio adequado, inviabilizando pagamentos a credores e a liberação de novas parcelas de obras em andamento. A paralisação teria efeito cascata: construtoras sem receber, investidores sem resgate, mutuários sem Funding.

O modelo de risco da MFS

A Market Financial Solutions cresceu nos últimos anos como alternativa aos grandes bancos no nicho de crédito de curto prazo — os chamados bridging loans. Taxas mais altas, aprovação ágil, menos burocracia. O último balanço disponível indicava carteira superior a 500 milhões de libras.

Mas o modelo dependia de duas engrenagens sensíveis:

  • Linhas de liquidez bancárias para warehouse funding
  • Confiança contínua de fundos de pensão e family offices aportando capital

O congelamento pelo Barclays rompeu a primeira. A segunda começa a rachar com a publicidade do caso.

Por que o banco teria bloqueado as contas

O Barclays não comentou publicamente os motivos. Fontes do setor citam três hipóteses não excludentes:

  • Alertas de compliance acionados por movimentações atípicas entre contas de clientes e operacionais
  • Pressão regulatória pós-escândalos de lavagem de dinheiro no setor imobiliário britânico
  • Revisão de apetite a risco em exposição a non-bank lenders após alta de juros

Advogados especializados em banking litigation dizem que bancos britânicos têm poder amplo para encerrar relacionamentos comerciais, mas precisam seguir regras de fair treatment e aviso razoável — exceto em casos de suspeita de crime financeiro.

O efeito nos pequenos negócios e incorporadoras

O impacto não fica restrito à MFS. Desenvolvedores de médio porte que dependiam de desembolsos programados para finalizar obras relatam paralisações. Alguns já buscam rescue finance com concorrentes — a taxas 2 a 3 pontos percentuais acima do contratado originalmente.

Investidores que aportaram via notes estruturadas pela MFS enfrentam incerteza sobre prazos e recuperação. A FCA (Financial Conduct Authority) monitora, mas não há indicação de intervenção direta até o momento.

Cenários para os próximos 90 dias

Três desfechos possíveis dominam as conversas em deal rooms de Londres:

  • Acordo extrajudicial: Barclays libera parte dos recursos mediante garantias e auditoria independente — prazo estimado: 4 a 6 semanas.
  • Administração judicial: MFS entra em administration (equivalente britânico à recuperação judicial), com administrador nomeado para liquidar carteira ordenadamente.
  • Disputa longa: Litígio no High Court ou arbitragem, com contas bloqueadas por meses. Cenário mais danoso para credores finais.

Advogados da MFS preparam pedido de medida cautelar para liberação parcial dos fundos de terceiros. Audiência preliminar pode ocorrer ainda em outubro.

O que observar daqui pra frente

O caso expõe a fragilidade estrutural do ecossistema de alternative lending no Reino Unido: dependência de poucos bancos para liquidez operacional, ausência de clearing independente para fundos de investidores e lacuna regulatória entre atividade bancária e crédito não bancário.

Para quem opera no setor — seja como investidor, incorporador ou intermediário —, três sinais merecem acompanhamento semanal: decisões da FCA sobre supervisão de warehouse facilities, movimentação de outros grandes bancos (Lloyds, NatWest, HSBC) revisando exposição a challenger lenders, e eventuais mudanças no Senior Managers & Certification Regime que ampliem responsabilidade pessoal por falhas de controle.

Enquanto isso, 145 milhões de libras seguem paradas. E cada dia de paralisação eleva o custo final para quem confiou nessa cadeia.