A soja fechou a segunda-feira (28) abaixo de US$ 13 por bushel em Chicago — patamar que não se via desde o final de 2023. O contrato novembro, referência para a safra nova nos EUA, perdeu quase 40 pontos em uma única sessão. O gatilho foi a confirmação de que Pequim não renovará compromissos de compra adicionais previstos na “Fase 1” do acordo comercial com Washington.
Para o produtor brasileiro, o sinal é claro: a janela de preços elevados fechou mais cedo do que o esperado. A dúvida agora é até onde o recuo pode ir antes de encontrar suporte técnico consistente.
O que moveu o mercado em poucas horas
Três fatores se combinaram para derrubar as cotações quase simultaneamente:
- Fim das compras obrigatórias: A China não assumiu novos volumes além do que já estava contratado, retirando um pilar de demanda que sustentava os prêmios.
- Dólar forte: A moeda americana renovou máximas frente a uma cesta de divisas emergentes, encarecendo a commodity para importadores.
- Clima favorável no Meio-Oeste: Chuvas regulares nas últimas duas semanas melhoraram o potencial produtivo da safra 2024/25 nos EUA, ampliando a expectativa de oferta recorde.
O resultado foi um movimento técnico violento: fundos especulativos zeraram posições compradas e ampliaram vendidas, acelerando a queda além dos fundamentos de curto prazo.
Impacto direto na formação de preço no Brasil
Com Chicago abaixo de US$ 13, a paridade de exportação nos portos brasileiros recua para a faixa de R$ 130 a R$ 135 por saca de 60 kg — níveis que pressionam a margem de quem ainda tem soja a fixar. O prêmio de exportação em Paranaguá, que chegou a US$ 1,20/bushel em junho, hoje mal cobre o frete interno.
Tradings já relatam lentidão nos negócios spot. Produtores com caixa confortável seguram a mercadoria, apostando em recuperação sazonal no quarto trimestre. Quem precisa honrar compromissos financeiros, porém, aceita fechar nas atuais referências.
Cenários para os próximos 30 dias
Analistas dividem-se entre duas trajetórias prováveis:
- Cenário base (60% de chance): Lateralização entre US$ 12,50 e US$ 13,20 até o relatório de oferta/demanda do USDA em 12 de setembro, com volatilidade intradiária elevada.
- Cenário de baixa estendida (30%): Ruptura de US$ 12,50 se o USDA confirmar estoques finais acima de 450 milhões de bushels e a China mantiver postura compradora comedida.
O risco de alta (10%) depende de evento climático adverso nos EUA nas próximas três semanas ou anúncio surpresa de compras chinesas de grande volume — ambos considerados de baixa probabilidade no momento.
O que observar daqui para frente
Três indicadores devem ditar o ritmo nas próximas sessões: (1) o ritmo de embarques semanais dos EUA, divulgado às quintas-feiras; (2) o prêmio da soja brasileira sobre Chicago, termômetro real da demanda chinesa por origem alternativa; e (3) o posicionamento líquido dos fundos no relatório COT de sexta-feira. Enquanto o especulador mantiver venda líquida acima de 150 mil contratos, a tendência segue vulnerável a novas pernadas de baixa.
Para quem opera no físico, a recomendação técnica majoritária é escalar vendas em faixas de 10% a 15% da produção remanescente a cada recuperação de 20 a 30 centavos, evitando concentração em um único ponto de preço.
