Economia

Joesley Batista assume Avibras: do frango ao foguete, o segredo por trás do negócio

Joesley Batista em destaque com silhueta de foguetes Avibras ao fundo, simbolizando transição do agronegócio para defesa
Batista assume Avibras: do frango aos mísseis, a nova rota do conglomerado J&F

Os irmãos Batista oficializam em outubro o controle da Avibras, principal fabricante de armas do Brasil, após injetar cerca de R$ 300 milhões na empresa que esteve paralisada pela maior greve da história nacional. A transição marca a entrada de um conglomerado de proteína animal no setor de defesa, mas a operação carrega riscos e oportunidades que vão muito além da troca de comando.

Como um grupo acostumado a escalas industriais de frango e bovino vai gerir mísseis táticos de cruzeiro e sistemas de artilharia Astros? A resposta passa por uma teia de dívidas, pressões geopolíticas e um vácuo de financiamento estatal que o governo Lula não conseguiu preencher sozinho.

O buraco de R$ 600 milhões e a saída via Indonésia

A Avibras arrastava um passivo estimado em mais de R$ 600 milhões, dos quais R$ 230 milhões eram débitos trabalhistas. O último grande contrato de exportação havia sido fechado em 2012 — a venda do sistema Astros-2 para a Indonésia.

O golpe decisivo veio com o cancelamento do acordo de US$ 820 milhões (R$ 5,2 bilhões corrigidos) com o Qatar, vetado sob pressão de Israel sobre o governo Bolsonaro. Sem novos pedidos externos e com o Exército operando em baixo nível de investimento, a recuperação judicial tornou-se inevitável em março de 2023.

Por que os Batista? A conexão que ninguém esperava

Joesley não escondeu a falta de intimidade com o setor. “O que é essa Avibras?”, perguntou ao ministro da Defesa José Múcio no início do ano. A piada do pernambucano — “o ‘avi’ não tem a ver com aves” — resume o abismo entre os mundos.

A ponte foi a Indonésia. O fundo Brasil Crédito, credor-chave, comprou em agosto de 2024 a dívida de R$ 220 milhões da indonésia PDS. Joesley já operava no país asiático, de onde trouxe US$ 2,5 bilhões do fundo soberano no mês passado e onde mantém histórico de disputas societárias com a Paper Excellence.

Para o Planalto, a solução era perfeita: Lula vetara qualquer comprador estrangeiro, o que derrubou negociações avançadas com a australiana DefendTex, o grupo emiratí Edge e a chinesa Norinco. Um “campeão nacional” privado, ainda que improvável, resolvia o impasse político.

O que muda na prática a partir de outubro

  • Controle: Globe Investimentos (family office dos Batista) assume via aquisição do Brasil Crédito, aprovada pelo Cade em 14 de agosto. A Avibras não integra a holding J&F.
  • Governança: Bruno Dantas, ex-presidente do TCU e da Intosai (“ONU dos tribunais de contas”), presidirá o conselho. Sua expertise: manuais regulatórios de negócios de defesa.
  • Operação: Sami Hassuani, CEO no auge de 2008-2016, deve permanecer na gestão executiva. Meta declarada: 1.000 funcionários e R$ 500 milhões de faturamento até 2028, focado em exportação.
  • Quadro: Acordo trabalhista prevê 850 demissões e 450 readmissões dos 1.400 originais.

Os ativos que interessam ao mercado global

A Avibras carrega dois programas estratégicos. O MTC (Míssil Tático de Cruzeiro) consumiu R$ 1,5 bilhão em investimentos das Forças Armadas e acaba de passar em novo teste de certificação no Rio de Janeiro. O sistema Astros-2 equipa 44 lançadores do Exército brasileiro e já opera na Arábia Saudita, Malásia e Indonésia — portas de entrada para novos contratos.

Há ainda apostas em míssil balístico de nova geração, drones e sistemas antiaéreos. O DNA exportador da casa — que nos anos 1980 armou o Iraque de Saddam Hussein — encontra agora um ciclo de rearmamento global impulsionado pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.

O fator eleitoral e o vácuo fiscal

O governo anunciou R$ 300 milhões para mísseis da Avibras no início do ano, mas o valor foi contingenciado em agosto. A prioridade do Exército é ver o MTC operacional, e para isso a fábrica precisa aberta — o que a entrada dos Batista garante no curto prazo.

No médio prazo, dois cenários se desenham: se Lula permanece, há promessa de recompor investimentos em defesa, mas o arcabouço fiscal torna isso incerto. Se Flávio Bolsonaro vence, a influência externa no setor volta à mesa — resta saber a favor de quais players.

O que observar daqui para frente

A combinação de capital privado, livre de amarras da J&F, com expertise regulatória de Dantas e conhecimento técnico de Hassuani cria uma configuração inédita. O primeiro teste real será a capacidade de converter o portfólio maduro (Astros-2, MTC) em contratos assinados com Arábia Saudita, Índia — onde a J&F já vende frango congelado — e outros países que buscam diversificar fornecedores. O relógio corre: a certificação do MTC e a manutenção dos 44 lançadores do Exército são prazos duros que não perdoam improvisação.