A Amazon acaba de cruzar a marca de 100 mil vendedores parceiros no Brasil, sustentando uma operação que já cobre todos os 5.570 municípios do país. O número revela a escala de uma aposta que consumiu R$ 19 bilhões apenas em 2025 e soma R$ 75 bilhões em 15 anos. Mas o dado que deveria preocupar a concorrência está em outro lugar: a empresa inaugura dois centros logísticos por semana.
Juliana Sztrajtman, CEO da operação brasileira, define os parceiros como “o coração da operação”. Sem eles, diz, o mix atual de 150 milhões de produtos em 50 categorias seria inviável. A estrutura atual conta com 300 centros de distribuição e 55 mil colaboradores diretos e indiretos — alta de 50% em doze meses.
O varejo online ainda é “dia 1” no Brasil
Um estudo do Bradesco BBI citado pela executiva coloca o e-commerce em apenas 17% do varejo nacional. Em mercados maduros, a fatia passa de 40%. Para a Amazon, essa diferença não é um teto — é o tamanho da oportunidade. A empresa classifica o Brasil como mercado emergente ao lado de Índia, México, Austrália, Singapura e África do Sul, mas evita revelar sua posição no ranking interno.
O potencial se traduz em números: 50 milhões de itens importados no catálogo e uma base de consumidores que, segundo Sztrajtman, tem “alto engajamento” em compras digitais. O desafio é converter esse engajamento em recorrência.
Velocidade: de dias para minutos
Há cinco anos, entrega em dois ou três dias era diferencial. Hoje, a meta é 15 minutos. A parceria com a Rappi já opera em oito capitais e mira a expansão da chamada “entrega instantânea”. O movimento acompanha a mudança no perfil de busca: categorias de uso diário — higiene, limpeza, alimentação — crescem acima da média.
- Cosméticos: +50% de SKUs no último ano
- Alimentos frescos: nova frente de batalha (Shopee estreou entrega em 4h em agosto)
- Itens de rotina: tíquete médio menor, demanda estável mesmo com endividamento familiar alto
A estratégia logística absorve o estoque de vendedores que vão do MEI a grandes redes como Magazine Luiza, Carrefour e Grupo Casas Bahia. A Amazon assume armazenagem, expedição e pós-venda. Detalhes contratuais não são divulgados.
Crédito, IA e a reforma tributária
A parceria com o Nubank para oferta de crédito (NuPay) está “totalmente integrada à operação”, segundo a CEO. Funciona como amortecedor em cenários de restrição de renda. Paralelamente, inteligência artificial roda em 100% da cadeia: do cadastro automatizado de produtos à definição da embalagem ideal para cada item.
Sobre a reforma tributária, a empresa está em fase de adaptação dos sistemas, com foco em segurança da informação. A avaliação interna é otimista: “vai simplificar a forma de operar”. Quanto a eventuais mudanças na jornada de trabalho, a postura é de monitoramento próximo e adaptação rápida.
Diversidade como estratégia de negócio
Diferente do movimento de recuo em políticas de diversidade nos EUA, a Amazon Brasil mantém a expansão. A liderança é majoritariamente feminina — resultado de “trabalho intencional”, nas palavras de Sztrajtman, primeira mulher a comandar a operação no país. “Se eu quero atender bem o cliente brasileiro, tenho que ter um quadro que represente essa população.”
O que observar daqui para frente
Três vetores devem ditar o ritmo nos próximos trimestres: a velocidade de abertura de novos centros logísticos (duas por semana é o patamar atual), a penetração de categorias de alta recorrência como alimentação e higiene, e a capacidade de converter os 50 milhões de itens cross-border em vantagem de sortimento sustentável. A reforma tributária, se implementada sem sobressaltos, tende a reduzir atritos operacionais — mas o cronograma de adaptação dos sistemas será o termômetro real.
Para quem vende ou investe no varejo digital, o recado está dado: a infraestrutura está pronta, a base de vendedores consolida-se e a briga agora é por frequência de compra. Quem não estiver no marketplace da Amazon — ou não tiver logística comparável — corre o risco de ficar invisível para o consumidor que aprendeu a receber em minutos.
