Economia

O plano que dobra o salário mínimo e acaba com a escala 6×1: o que a UP propõe para 2026

Samara Martins candidata UP apresenta programa salário mínimo R$ 3.242 jornada 4x3
Candidata Samara Martins (UP) protocolou proposta de salário mínimo R$ 3.242 e jornada 4x3 no TSE.

A candidata Samara Martins (UP) protocolou no TSE um programa que propõe elevação imediata do salário mínimo para R$ 3.242 e a adoção da jornada 4×3 em todo o território nacional. As medidas fazem parte de um projeto declarado de transição ao socialismo que inclui suspensão do serviço da dívida pública e estatização de setores estratégicos.

O documento de 67 páginas, registrado sob o título “Unidade Popular pelo Socialismo”, não esconde o objetivo estrutural: substituir o modelo econômico vigente. Para o empresariado e investidores, o texto sinaliza rupturas profundas em contratos, regulação e propriedade privada.

O choque na folha de pagamento e na jornada

O eixo “Trabalho e Salário” prevê dois movimentos simultâneos: dobragem do piso salarial — acréscimo exato de R$ 1.621 sobre o valor de referência — e extinção da escala 6×1, substituída por quatro dias de trabalho e três de folga sem redução de remuneração.

Na prática, o custo unitário de mão de obra sobe em duas frentes: base salarial maior e menor disponibilidade de horas produtivas por semana. O programa também garante emprego a todo adulto apto ao trabalho, o que implicaria criação de vagas em escala massiva ou absorção pelo setor público.

Dívida pública: R$ 2 trilhões redirecionados

A proposta mais impactante para o mercado financeiro está no eixo econômico: suspensão imediata do pagamento da dívida e auditoria cidadã. A UP estima que cerca de R$ 2 trilhões anuais deixariam de ir para o serviço da dívida e migrariam para políticas sociais.

O documento não detalha o tratamento de credores domésticos e externos, nem o arcabouço jurídico para a moratória. A leitura de analistas é de que a medida, se implementada, geraria default soberano imediato, corte de acesso a mercados internacionais e pressão cambial severa.

Estatização ampla: bancos, energia, mineração e logística

O programa lista setores que passariam a controle estatal integral ou majoritário:

  • Sistema financeiro: nacionalização dos bancos, fusão sob gestão estatal e dos trabalhadores, fim da autonomia do Banco Central.
  • Energia e combustíveis: monopólio público na geração, mineração, produção e distribuição; reestatização de Eletrobras e Petrobras (100% estatal).
  • Mineração e logística: retomada da Vale, ferrovias, portos, aeroportos, rodovias concedidas e saneamento.
  • Telecomunicações e defesa: estatização de empresas do setor e da indústria de defesa.
  • Transporte urbano: estatização de frotas, metrôs e trens privatizados; fortalecimento da CBTU.

O texto veda novas privatizações e leilões de petróleo, e prevê revisão ou revogação de concessões vigentes.

Tributação: isenção na base, taxação no topo

No desenho fiscal, a UP propõe isenção de Imposto de Renda para trabalhadores, desoneração da cesta básica e itens essenciais, e criação de tributação progressiva sobre grandes fortunas, lucros, dividendos e heranças de bilionários.

Há menção a alterações no ICMS/IVA com redução de alíquotas e isenções seletivas, mas sem detalhamento de alíquotas, faixas de renda ou estimativas de arrecadação líquida.

Judiciário eleito e segurança desmilitarizada

O programa propõe eleição direta para juízes e tribunais superiores, fim dos “penduricalhos” que elevam vencimentos acima do teto constitucional, e fortalecimento da Justiça do Trabalho.

Na segurança, prevê desmilitarização das polícias, reorganização de carreiras e mudança do modelo de atuação. O sistema penitenciário passaria por reforma ampla.

Comunicação e cultura sob controle público

O eixo de comunicações prevê estatização dos “monopólios de TV e rádio” e apoio a imprensa comunitária e alternativa. Na cultura, prioridade à produção popular e nacionalização de grandes gravadoras e produtoras cinematográficas.

O que observar daqui para frente

A chapa pura feminina — Samara Martins, 38 anos, cirurgiã-dentista do SUS no RN, e Raquel Brício, 34 anos, guarda portuária e dirigente sindical no PA — reflete a identidade do partido, criado em 2016 no campo da esquerda radical.

Para quem gere capital, risco ou operações no Brasil, o programa funciona como radar de cenário extremo: default soberano, quebra de contratos de concessão, fim da independência monetária e redesenho completo das relações de trabalho. A viabilidade eleitoral da candidatura permanece baixa nas pesquisas atuais, mas o documento registra no TSE o limite programático de uma fatia do eleitorado que pressiona por rupturas institucionais.

O próximo passo prático é monitorar o tempo de propaganda no horário eleitoral e a repercussão das propostas nos debates — especialmente a reação de candidatos de centro e direita às pautas de jornada 4×3 e douração do salário mínimo, que podem migrar para o discurso de campanha mesmo sem adesão ao projeto socialista.