O governo elevou de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina comum, medida temporária que vigora por 180 dias e pode ser prorrogada. A decisão, amparada na Lei do Combustível do Futuro, promete cortar cerca de 900 milhões de litros em importações de gasolina por ano. Mas o que parecia uma questão técnica acabou virando palanque eleitoral — e o desdobramento ainda está longe do fim.
O golpe no bolso que ninguém explicou direito
Senador Flávio Bolsonaro comparou a mudança à “reduflação” — o encolhimento silencioso de embalagens de papel higiênico e ovos. “Se você paga por gasolina, deve receber gasolina”, disse em transmissão ao vivo. A frase colou: motoristas passaram a questionar se estão levando menos energia por litro.
Dois parlamentares do PL apresentaram projetos para derrubar a resolução do CNPE. A narrativa ganhou força nas redes sociais, alimentando dúvidas sobre danos a motores e perda real de autonomia. O Ministério de Minas e Energia, por sua vez, garante que testes em 16 automóveis e 13 motocicletas atestaram segurança da nova proporção.
O que a engenharia automotiva diz de verdade
Rogerio Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), é direto: a frota flex brasileira — cerca de 80% dos veículos de passeio — foi projetada para operar com qualquer mistura entre 25% e 100% de etanol. Não há risco técnico para motores, injeção ou vedação.
O único efeito mensurável é a queda de eficiência energética. O etanol tem menor densidade energética que a gasolina pura. Na prática, o tanque rende menos quilômetros. É física, não defeito.
Os números que importam para o seu negócio
- Mistura anterior: 30% etanol anidro
- Mistura atual: 32% (temporária, 180 dias prorrogáveis)
- Importações evitadas: ~900 milhões de litros/ano
- Limite legal (Lei 14.993/2024): entre 22% e 35%, com viabilidade técnica acima de 27%
- Meta 2035 (NDC Brasil): 35% etanol na gasolina C
- Investimento global em biocombustíveis 1S2026: US$ 7,7 bi (+62% a/a)
- Participação das Américas: 58% do total, puxada pelo Brasil
O agronegócio comemora, a oposição ataca
Seis entidades do setor sucroenergético — cana, milho e bioenergia — rebateram a comparação com reduflação em nota conjunta. Argumentam que a política de mistura é construída há décadas por governos de diferentes matizes e que o próprio senador votou a favor do marco legal que a autorizou. A votação no Senado foi simbólica, com apenas um voto contrário registrado.
O setor vê a medida como sinal verde para novos investimentos. A BloombergNEF aponta que o Brasil concentrou quase todo o crescimento de capital em biocombustíveis nas Américas no primeiro semestre de 2026. Dinheiro novo indo para usinas, logística e tecnologia de etanol de milho.
Por que isso não vai desaparecer após a eleição
Analistas do Eurasia Group avaliam que a espinha dorsal da política de biocombustíveis deve se manter independentemente do vencedor em 2026. O Congresso e a indústria formam bloco coeso em torno da Lei do Combustível do Futuro. A diferença está na velocidade e na ambição externa.
O governo atual prioriza rotas de exportação — combustível sustentável de aviação (SAF), diesel verde (HVO) e biometano — como vetores de desenvolvimento industrial. A oposição sinaliza apoio ao etanol, mas com outra arquitetura de incentivos. O tabuleiro está posto; as peças é que mudam de lugar.
O que observar daqui para frente
Três gatilhos merecem radar nos próximos meses: a conclusão dos testes de durabilidade para eventual elevação a 35%, a tramitação dos projetos de decreto legislativo que tentam suspender a resolução do CNPE e a definição do novo plano safra para cana e milho, que ditará a oferta de anidro em 2025/26. Quem decide alocação de capital em logística, armazenagem ou frota própria precisa precificar não só o preço na bomba, mas a previsibilidade regulatória que sairá desse embate.
